Sistemas místicos na literatura especulativa – formas, efeitos e quem usa

Olá, escritoras e escritores!

Nós ficamos algum tempo sem postar nada, como podem ter percebido. A pausa se deveu especialmente ao mestrado, que nós dois começamos esse ano.

Contudo, o projeto continua! Embora tenhamos colocado em suspenso o nosso livro conjunto (por ora, ao menos), começamos esse segundo semestre lançando o Concurso Multiversos e planejamos retomar as postagens sobre teoria e técnica literária voltadas à literatura especulativa.

Portanto, retomando os trabalhos, nosso post de reinauguração será a segunda parte sobre Sistemas Místicos. Você pode conferir a primeira parte aqui.

Na postagem passada, tratamos sobre o conceito, a origem, as repercussões e os limites de poder de um sistema místico para o cenário.

Agora, falaremos um pouco sobre as formas de uso, os efeitos e os seres que os utilizam.

Lembramos que os princípios também se aplicam a qualquer tipo de habilidade sobrehumana e sobrenatural.

  1. Formas

Um aspecto muito importante para a narrativa é a forma como a magia é realizada. Essa etapa de criação engloba duas coisas: definir o sistema em si e definir a fórmula de acesso a essa magia.

Definir um sistema é criar o funcionamento de seu conceito, efetivamente. A magia em seu cenário exige um ritual complexo para ser realizada? Uma combinação de gestos e palavras mágicas? Um gene especifico para se ter algum tipo de super poder? Um implante cibernético? Pura força de vontade? Uma combinação desses elementos?

A magia em “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley, depende muito da ritualística. É necessário um treinamento mental e espiritual para realizá-la e estar à serviço da Deusa e do Deus. As personagens realizam rituais ou invocam em orações o poder divino.

Em “Star Wars”, a Força se manifesta apenas em alguns indivíduos. É preciso treinamento para refinar seu uso, aprender a dominá-la e se tornar um Jedi ou Sith (além das demais outras ordens usuárias da Força no Universo Expandido, mas isso é outra história). Mas usar a Força depende apenas da vontade em empregá-la.

Então, é preciso definir como a magia funciona, qual a natureza dela e como se manifesta: vontade, fórmulas mágicas, modificações genéticas, ou o que mais sua criatividade permitir. Ao definir o sistema desse poder e sua forma de ativação, cria-se consistência no texto.

A complexidade do sistema varia de acordo com sua paciência e sua necessidade. Quanto mais presente for a magia no cenário, recomenda-se que o sistema seja mais detalhado, para facilitar lidar com ele. Saber como sua magia funciona ajuda na hora de escrever, dá segurança e parâmetros. Saber como ela se ativa ajuda na descrição, na forma como pode ser usada e as limitações físicas que tem para ser utilizada. Em Harry Potter de J.K. Rowling, por exemplo, a imensa maioria das magias precisa de uma varinha e de palavras mágicas (ainda que possam ser ditas apenas mentalmente, como mostra no livro seis, e algumas independam das varinhas, sendo muito específicas).

É importante que a forma e a fórmula do seu sistema místico sejam condizentes e coerentes com o conceito, a natureza e a origem definidas no post anterior. Isso dá maior solidez à construção, ajuda na verossimilhança e em alcançar a Suspensão de Descrença. Também facilita muito a narrativa, pois permite à autora ou autor compreender os fundamentos de como a magia é criada e como deve ser feita sua descrição ao ser utilizada.

  1. Efeitos

Podemos dizer que a forma é como a magia se realiza no seu cenário, enquanto os efeitos são o que a magia realiza. Estabelecer regras básicas sobre o que é possível ou não com a magia ajuda bastante a manter a história equilibrada e verossímil.

Mais do que o visual descritivo das magias, o que é muito importante, os efeitos mostram a capacidade que a magia tem em alterar e deformar a realidade, como sua existência mexe com o mundo e quais as possibilidades que se apresentam.

Em “Senhor dos Anéis”, de Tolkien, a magia na Terceira Era é relativamente parca. Algumas armas brilham e os efeitos são mais sutis. Um dos maiores artefatos, o Um Anel, tem o poder de deixar quem o usa invisível. Os Bruxos de Angmar são extremamente poderosos, mas suas magias têm efeitos sutis. A magia mais poderosa é feita fora dos olhos, como em uma subrealidade, e não é simples ou fácil se ter acesso a ela.

Em Harry Potter, a magia possui efeitos visuais fortes. Raios, modificações corporais, levitação, transmutação. Até mesmo um bruxo de onze anos consegue fazer maravilhas no primeiro ano da escola, o que segue aumentando. Mas existem regras e limites, como, por exemplo, é impossível criar comida do nada, ou ressuscitar os mortos.

Os efeitos podem ser descritivamente complexos e sutis, ao mesmo tempo. Podem ser explosões de energia e cores, mas com consequências simples e instantâneas. O importante aqui é ter controle sobre eles, sobre o que podem fazer e como se descreve sua atuação.

Os efeitos podem também ser estáticos ou dinâmicos. Estáticos são aqueles que tem uma fórmula pronta para eles, especifica e que gera um determinado efeito único. Harry Potter é, outra vez, um bom exemplo de efeitos estáticos, pois cada formula mágica gera uma determinada magia. Cenários de ficção científica usualmente possuem efeitos estáticos, em que cada aparelho tecnológico permite uma gama limitada de efeitos.

Por efeitos dinâmicos, entendemos aqueles que, dentro de um espectro, permitem uma série de efeitos possíveis. Magneto, da Marvel, tem o espectro do magnetismo e pode utilizá-lo das mais variadas maneiras. O uso da Força, embora haja rotinas e poderes já pré-estabelecidos, mostra-se bem dinâmico em suas aplicações. Os efeitos dinâmicos usualmente possuem um eixo central, que determinam um espectro de ação para os poderes, mas que, dentro dele, permite a criatividade e vontade da pessoa que o possui.

A imensa maioria das histórias costuma misturar efeitos dinâmicos e estáticos. Em “A Crônica do Matador do Rei”, de Patrick Rothfuss, a simpatia é um sistema estático de magia, enquanto a nomeação é um sistema dinâmico. Em “Jonathan Strange & Mr. Norrell”, de Susanna Clarke, temos a polarização entre a magia erudita e estática de Norrell e a magia intuitiva e dinâmica de Strange, assim como a magia dos humanos e a magia das fadas.

É importante tomar algumas definições de efeitos, para se ter em mãos as ferramentas de uso possíveis na história, saber os limites e ter material para trabalhar na descrição visual do uso místico. Isso define sua operacionalização no cenário, como se apresenta fisicamente e os limites de sua atuação.

  1. Quem pode usar

Usualmente, a magia é para poucos. Em Star Wars, possuir a Força também depende de nascer com a habilidade, ou seja, ela é inerente a uma pessoa, como um dom natural.

Em alguns outros cenários, é possível aprender a usar a magia. Em “A Crônica do Matador do Rei”, a Universidade, ou alguma outra pessoa que sirva de mentor, pode ensinar a usar a simpatia. Em cenários de ficção científica, costumamos ter uma mistura dessas possibilidades: alguns nascem com habilidades sobrenaturais, como mutantes, inumanos e meta-humanos – citando os casos nas histórias em quadrinhos – outros adquirem essas habilidades por meio de inovações tecnológicas, aparelhos, acidentes ou implantes cibernéticos. Raças alienígenas costumam ter habilidades sobrenaturais, como telepatia, telecinese, super força, etc.

A magia pode, portanto, ser inata ou adquirida, ou uma mistura de ambos. Definir quem são as potenciais detentoras de magia auxilia na construção do cenário e pode criar arcos bem interessantes, abordando como a magia se vincula ao cenário político, por exemplo. Em “Avatar: A lenda de Korra”, temos, no Livro Um, os equalistas, que se rebelavam contra o domínio dos dobradores. A magia pode ser um instrumento de opressão, ou aqueles que a possuem podem ser excluídos e oprimidos, banidos do convívio social por serem estranhos e diferentes.

Definir quem pode usar a magia ou tecnologia e como estas podem ser usadas ajuda na construção política e social do cenário e nas repercussões que isso cria. Em Harry Potter as pessoas bruxas, que possuem o dom inato para usar a magia, vivem em uma sociedade alternativa e escondida do mundo trouxa, fazendo malabarismos para se manterem invisíveis. No primeiro livro da série “A Primeira Lei”, de Joe Abercrombie, a revolução da magia ditou as novas leis, e manteve cativo um lugar no Conselho para o Primeiro Mago, mostrando o poder inerente político a quem detém essa habilidade. Em X-Men, os mutantes são caçados e desprezados, brigando por aceitação enquanto salvam o mundo de outros mutantes e perigos. A briga mostra facções polarizadas entre Professor Xavier e Magneto, com visões distintas sobre o lugar mutante na sociedade.

Enfim, definir quem tem a capacidade de utilizar a magia e a forma como se adquire essa capacidade permite criar arcos muito interessantes na história.

Claro que essas diretrizes não precisam ser levadas como regras. Neil Gaiman constrói um sistema poético de realidade em cada livro, que nunca deixa muito claro os limites. George R.R. Martin, recentemente, deu uma declaração dizendo que não há um sistema de magia em seu cenário.

O importante, ao trabalhar com sistemas místicos, é manter a consistência, a verossimilhança e não quebrar a suspensão de descrença de quem lê. Seguir algumas dessas indicações pode facilitar o caminho, mas a prioridade deve ser sempre o que sua história pede.

No mais, desejamos uma boa história. E continue escrevendo fantasia.

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Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
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