Sistemas místicos na literatura especulativa – Parte I

A magia, ou toda a sorte de capacidade sobrenatural, é quase um pressuposto da literatura especulativa. Da alta fantasia à ficção científica, a existência do sobre-humano se faz presente, encanta e produz histórias incríveis. Mas, como já dissemos antes aqui no blog, o trabalho de quem escreve é criar um cenário crível e verossímil dentro de seus pressupostos,para que as leitoras e leitores alcancem a Suspensão de Descrença. Por isso, é preciso cuidado especial ao se criar sistemas místicos, pois, se mal executados, podem jogar para fora da história quem lê.

Para nossos propósitos aqui, chamaremos de sistemas místicos toda e qualquer forma de atuação sobre-humana, desde a magia até implantes tecnológicos ou engenharia genética, que permitam às personagens terem superpoderes. No fundo, os princípios são os mesmos, tecnológicos ou sobrenaturais: indicam uma capacidade além do normal de realizar alguma coisa.

Esse artigo será dividido em duas partes. Nesta primeira, vamos explorar as principais definições necessárias para se criar um sistema místico, em quatro passos: conceito, origem, repercussões e limites. Na próxima parte, vamos tratar sobre as formas, os efeitos, os seres que os utilizam e o uso dos sistemas na história.

 

1 – Defina o conceito dos seus sistemas místicos

A natureza e o conceito é o que dará as bases de seus sistemas místicos. Esse é o ponto da imaginação, a partir do qual  você vai formular seu sistema e sua premissa. Basicamente, aqui estamos falando sobre o tipo de capacidade sobre-humana que você quer escrever: magia inata? Magia erudita? Mutações genéticas? Poderes divinos ou cósmicos? Implantes tecnológicos?

Seja qual for sua escolha, a pergunta é: o que você quer de sobrenatural no seu cenário?

Definir uma premissa ou conceito ajuda a nortear a construção do sistema nos passos posteriores e garante que não se vai fugir da proposta da obra. Serve como um guia, ou como material de consulta durante dúvidas na narrativa, para se saber se uma determinada cena poderá ou não quebrar a verossimilhança da história.

Um outro ponto relevante é que seu cenário não precisa ter apenas um sistema místico, mas o conceito deve englobar todos os sistemas, dando-lhes unicidade, ou seja, uma linha central que os defina.

“O Nome do Vento”, primeiro livro da série “O Matador do Rei”, de Patrick Rothfuss, nos apresenta dois diferentes sistemas mágicos que convivem um com o outro: a Simpatia e a Nomeação. É um cenário em que a magia pertence a poucos, os eruditos. Seu conceito central baseia-se no fato de que a magia pode ser estudada e aprendida na Universidade, como também pode vir em uma Inspiração, quando se conhece o Nome de algo – esta última, a verdadeira magia. A partir disso, o autor desenvolve todo o sistema: origens, repercussões, limites e formas de uso.

 

2 – Defina a origem dos seus sistemas místicos

Toda magia ou habilidade sobre-humana tem uma origem. Pode ser mitológica, advinda de tempos imemoriais e conhecida apenas em lendas. Pode ser uma mutação genética que a fez surgir em determinados indivíduos. Talvez ainda fruto de muito estudo e conhecimento secreto, de fórmulas mágicas passadas de mestre a discípulo.

Qualquer que seja a origem definida, haverá uma história por trás dela a qual você, como autora ou autor, conhece. A origem dá complexidade ao cenário, unicidade ao sistema místico, uma base sobre a qual criá-lo e facilita muito na narrativa, tornando-a mais segura de si, consistente e sólida.

Um exemplo mundialmente conhecido é o de X-men, da Marvel. Os mutantes possuem habilidades derivadas de mutações genéticas naturais, que podem ser categorizadas em seis diferentes classes (Alfa, Beta, Gama, Delta, Ypsilon e Omega), ou ainda em cinco classes, pelo nível de poder (classificação da S.H.I.E.L.D, que vai de I a V).

Outra origem interessante da magia é a de “Jonathan Strange & Mr. Norrell”, de Susanna Clarke, que a liga às fadas e ao reino feérico, e alguns humanos podem acessar esse poder tanto pelo estudo, quanto por uma condição natural.

Qualquer que seja a origem do sistema místico, contá-la e descrevê-la pode ajudar muito em momentos cruciais quando o sistema for central na trama, quando você necessitar fundamentar algo ou mesmo durante a narrativa, para escrever com mais segurança quando o estiver utilizando.

Definir a origem de um sistema é muito semelhante a definir uma mitologia, assunto que já tratamos aqui no blog.

 

2 – Defina as repercussões da existência desses sistemas místicos no cenário

As repercussões de como determinados poderes interagem no seu mundo é extremamente importante para estabelecer suas consequências. Sejam habilidades mutantes ou poderes místicos, a existência deles influencia toda a dinâmica do cenário. E para manter a coerência e não quebrar a Suspensão de Descrença da leitora ou leitor, precisam ser inseridas no contexto sócio-político-econômico.

Em um cenário de Alta Fantasia, em que a magia é ordinária e qualquer vila ou aldeia possui um místico, sua realização não é mais tão impressionante. Além disso, sendo comum, ela passa a se tornar uma ferramenta do dia a dia, facilitando a vida das pessoas e, ao mesmo tempo, tornando-as dependentes. Seu uso é de conhecimento quase geral, as pessoas estão acostumadas a ela e a magia poderá ser encontrada ou usada pelas personagens com relativa frequência.

Já em cenários de Baixa Fantasia, em que a magia é algo escasso, misterioso, distante, inacessível e lendário, sua existência costuma ser tratada com assombro ou como verdadeira apenas em histórias antigas. Nesses cenários, a mais simples manifestação mágica pode ser vista como um grande poder. A sociedade não depende da magia, mas pode temê-la; um importante elemento da trama para subjugar uma população, por exemplo.

A existência da magia – ou qualquer forma de habilidade sobre-humana – influência nas relações. Em um mundo onde existam mutantes e meta-humanos, por exemplo, as pessoas normais podem ter mais medo, causando uma reação brutal (como o arco Guerra Civil da Marvel) ou quando meta-humanos fogem ao controle (leia Reino do Amanhã, da DC, para ter uma ideia).

Nesse ponto, é importante lembrar que a referência para capacidade sobre-humana é o nosso mundo real. Portanto, se você for criar uma história em um mundo ficcional em que todas as pessoas são telepatas, essa não será uma habilidade sobrenatural naquele cenário, mas com certeza vai influenciar imensamente as dinâmicas das relações interpessoais, políticas, econômicas, tecnológicas e sociais. Afinal, em um mundo desses, a mentira poderia não existir, já que todos leem a mente uns dos outros. A comunicação por meios tecnológicos seria quase inexistente, pois as pessoas poderiam se comunicar com mensagens telepáticas. Muitos dos nossos instrumentos atuais seriam inúteis – celulares, por exemplo. E isso gera um efeito cascata que precisa ser ponderado e pensado.

Portanto, toda habilidade sobre-humana terá impacto no cenário. É muito importante pensar sobre quais são esses impactos e suas consequências nas vidas das personagens. Um mundo igual ao nosso, onde a única diferença é que todas as pessoas são capazes de se transformar em um animal NÃO é, na verdade, igual ao nosso, sequer remotamente. Haveria nele, por exemplo, um respeito muito maior pelos animais, uma empatia maior do ser humano pelas outras espécies. Talvez classes e posições sociais poderiam ser relacionadas a determinadas transformações. Um universo onde algumas pessoas podem conversar com um deus e receberem dele poderes sobrenaturais tem grandes chances de se tornar teocrático. Enfim, as consequências são ainda mais vastas do que as possibilidades de poderes. Ponderar e construir isso faz com que o cenário pareça mais real, estruturado, ainda que sua personagem principal seja capaz de se tornar uma iguana telepata.

 

5 – Defina os limites. Evite o complexo DBZ

Freeza era o ser mais poderoso do universo, exceto por milhares de outros mais poderosos – inclusive andróides criados na terra – que surgiram logo depois, cada um sendo novamente o mais forte do universo.

A escalada do nível de poder em Dragon Ball Z é astronômica, foge a qualquer proporção e, depois de algum tempo, chega a ser cômica. Quando se lida com sistemas místicos evolutivos, perder a noção do nível de poder do cenário acontece com muita frequência, especialmente com autoras e autores iniciantes.

No afã de colocar desafios para suas personagens ou criar inimigos cada vez mais poderosos, com habilidades épicas e surpreendentes, escritoras e escritores perdem o limite do sistema místico. Afinal, primeiro há oito pessoas capazes de destruir o mundo com uma mão, e para explicar porque nenhuma delas o fez ainda, a autora ou autor cria, no meio da trama, mais dez capazes de matar as demais com um dedo. Mas isso gera o mesmo problema e, como solução, descobre-se que essas dez pessoas super poderosas são controladas, em uma plot twist, por outras vinte entidades capazes de fazer qualquer coisa. O ciclo de explicar poder com mais poder torna-se repetivivo, sempre com alguém mais e mais forte. Então, nesse cenário, qual a real serventia das protagonistas? Ou como essas terão arcos críveis em um cenário de poder tão cósmico?

Definir os limites dos seus sistemas místicos ajuda a definir o que é possível ou não dentro do cenário. Também ajuda a definir até que ponto um antagonista pode evoluir e até que ponto é uma ameaça. Ou qual o arco de evolução necessário para as protagonistas poderem dar conta do desafio e conflito da história. Além disso, um limite passa credibilidade e confiança. Tanto à escritora ou escritor, quando está narrando, quanto à leitora ou leitor, pela solidez da história.

 

A partir dessas definições, poderemos, na próxima semana, começar a criação de um sistema místico. Pareceu trabalhoso, né? Mas quem disse que escrever fantasia era fácil, afinal? 😉

Anúncios

Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
Esse post foi publicado em Teoria e Técnica e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Sistemas místicos na literatura especulativa – Parte I

  1. Pingback: Sistemas místicos na literatura especulativa – formas, efeitos e quem usa | Escrevendo Fantasia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s