Tipos de narrador – Qual o ponto de vista da sua história?

Um dos principais elementos de uma história é o narrador. Narrador é aquele que conta os fatos, que dá o tom da narrativa. Através dos olhos dele teremos – ou não – acesso ao mundo, aos pensamentos das personagens, aos seus sentimentos, suas personalidades. Ele é o filtro pelo qual os fatos passarão antes de chegar às leitoras e leitores.

Por isso, a escolha do narrador irá ditar vários outros aspectos de sua história. Saber escolher o melhor tipo de narrador para a história que você deseja contar é essencial para o sucesso desta. Porém, você conhece todas as opções de narrador existentes? A gente fez uma lista falando sobre cada uma, com exemplos.

1 – Narrador Onisciente

É a voz que tudo sabe e tudo vê. Tem acesso a todos os acontecimentos, pensamentos de personagens, informações do futuro, presente e passado. Esse tipo de narrador  era muito comum até o século XIX. Dessa época, destacamos “Os Maias”, de Eça de Queirós, e “Madame Bovary”, de Flaubert. Dentro da literatura especulativa, um exemplo clássico é a trilogia “Senhor dos Aneis”, de Tolkien.

A vantagem do narrador onisciente é que as leitoras e leitores podem ter acesso a informações que as personagens não tem. Nesse sentido, narradores oniscientes são muito usados em filmes de terror: enquanto a mocinha corre em uma direção, sabemos que o assassino, na verdade, está circulando-a e irá encontrá-la mais a frente. Outra vantagem é que esse tipo de narrador deixa a autora ou autor mais “livre” para ir e vir, pular da cabeça de uma personagem para outra, navegar no tempo e espaço e dar qualquer informação que queira. A desvantagem é que esse narrador pode não criar a mesma intimidade com leitoras e leitores, deixando a história um tanto distante e prejudicando a criação de empatia com personagens.

Claro que nem tudo precisa ser oito ou oitenta: dentro do narrador onisciente, você pode escolher o nível da onisciência – se ele será um deus ou se só terá acesso às ações que se desenrolam, por exemplo.

 

2 – Primeira pessoa do singular

Outro dos tipos mais comuns de narrador, a narração em primeira pessoa do singular ocorre quando uma personagem da história – eu – é quem conta diretamente os fatos. É como se a leitora ou leitor estivesse sentado em uma sofá, ouvindo um amigo narrar uma história que aconteceu com ele, ou que observou acontecer. Na literatura especulativa existem inúmeros exemplos de obras com este narrador: “Jogos Vorazes”, contado pela personagem principal, Katniss; e a série “A Crônica do Matador do Rei”, de Patrick Rothfuss, contada por Kvothe, são alguns exemplos. Note que, embora as duas obras tenham narradores em primeira pessoa como personagens principais, isso não é uma regra – é o caso do livro “O Grande Gatsby”, de F. Scott Fitzgerald, onde o narrador é vizinho do personagem principal.

A vantagem do narrador em primeira pessoa do singular é que ele permite uma maior aproximação com leitoras e leitores. A desvantagem é sua limitação: toda a história passará pelo filtro do narrador-personagem, limitando muito as possibilidades da autora ou autor de passar informações úteis, por exemplo.

Com esse tipo de narrador, a escritora ou escritor tem que ter cuidado para manter uma linguagem apropriada à personagem e para não “escapar” do ponto de vista escolhido. No caso da linguagem, é preciso manter uma coerência com as características da personagem: uma história narrada por uma criança não terá palavras muito rebuscadas – a não ser que a criança seja superdotada. No caso de escapar do ponto de vista, tenha cuidado para não revelar informações que seu narrador-personagem não possuiria: os pensamentos de outra personagem, por exemplo.

3 – Narrador em primeira pessoa do plural

Muito mais raro do que os dois primeiros tipos, o narrador em primeira pessoa do plural ocorre quando “nós” contamos a história. Embora, em primeira análise, possa parecer esquisito, na literatura especulativa, onde o gênero nos dá maior liberdade com relação às regras do mundo real, esse narrador pode ser uma opção interessante. Uma das autoras do Escrevendo Fantasia, por exemplo, escreveu uma história selecionada para uma prestigiada antologia onde o narrador era um grupo de bonecas Hello Kitty.

4 – Narrador na segunda pessoa (singular ou plural)

Esse tipo de narrador é ainda mais raro e difícil de manejar do que o narrador em primeira pessoa do plural – você. Foi muito comum na década de 1980, quando houve um boom de livros escritos na segunda pessoa. Quando uma autora ou autor usa essa voz, a história é contada como se o leitor fosse uma personagem, ou como se a história estivesse sendo contada de uma personagem para a outra. Um exemplo de narrador na segunda pessoa são aqueles livros-aventura infantojuvenis. Porém, o maior exemplar de uma obra com esse tipo de narrador é “Bright Lights, Big City”, de Jay McInerney, que inaugurou a “onda” de narradores em segunda pessoa.

A vantagem desse narrador é que pode criar terror psicológico e dar um clima de paranóia à história. Porém, permite menos afastamento – para dar informações da história, por exemplo.

5 – Narrador em terceira pessoa

O narrador em terceira pessoa ocorre quando um narrador – que pode ter diferentes níveis de onisciência -, segue uma personagem, contando sua história. Toda a informação dada será pela ótica daquela(s) personagem(s). Por exemplo, na série de livros “Crônicas de Gelo e Fogo”, de George R.R. Martin, cada capítulo é apresentado a partir do ponto de vista de uma personagem – isto é, até ela morrer (*barulho de bateria*).

Esse tipo de narrador é muito versátil e, por isso, muito comum. Dentre suas vantagens estão a versatilidade e a aproximação que causa às leitoras e leitores. Mas cuidado: é muito comum  haver confusão entre narrador onisciente e narrador em terceira pessoa. Se você começou sua história a partir do ponto de vista de uma personagem e, após 15 páginas, apresenta em um parágrafo os monólogos internos de outra personagem, você saiu do narrador. Torne seu narrador onisciente desde sempre, ou mantenha-se na terceira pessoa.

 

Como dizemos por aqui, nenhuma dessas “regras” são absolutas. Claro que irá depender da habilidade da escritora ou escritor em conseguir transformar as desvantagens de cada tipo de narrador em vantagens para sua história. Da mesma forma, uma mesma obra pode transitar por vários tipos de narrador – é o caso do livro “O Clube da Luta”, de Chuck Palahniuk.

Bem, essa foi a dica dessa semana. Continuem nos visitando e escrevendo fantasia!

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