Escrita, excelência e escolhas conscientes – a técnica literária como uma ferramenta, não uma limitação

Não existe regra absoluta na criação literária. Uma pessoa que escreve e consegue dominar seu texto e estilo muitas vezes comete erros propositais – contrários às técnicas usuais de escrita – e, justamente por causa desses erros, faz algo genial.

Escrevemos primeiro por prazer. Algumas pessoas adotam um clichê como mote de vida e sentem que vão morrer caso não escrevam. Existem aquelas que têm uma espécie de êxtase cartásico ao criar uma história, enquanto, para outras, escrever é um ato natural como respirar – simplesmente escrevem, pois é da sua natureza. Há também aquelas que apenas gostam de escrever, sentem-se bem. Descobrir o porquê cada um escreve é uma excelente discussão de bar, mas a conclusão é que existem tantos motivos quanto pessoas que escrevem. Sejam poemas que ficarão eternamente na gaveta, fanfics para amigos, livros infindáveis que jamais ficarão prontos, histórias para jogos de rpg ou contos e romances que planejam publicar para serem famosas e reconhecidas.

Nosso imaginário popular tem uma concepção de que todo o trabalho artístico advém de uma inspiração divina, de algo intocável e indescritível. Pode ser que a maioria das obras artísticas comecem assim. Mas, para realizá-las, artistas estudam e trabalham muito. Com escritoras e escritores, não é diferente. Não somos médiuns psicografando histórias de musas metafísicas, e sim pessoas que, sob um momento de inspiração – ou mesmo na falta dele -, produzem uma obra escrita.

Nós do Escrevendo Fantasia acreditamos que, para que um texto seja genial, raramente bastará apenas ser transcendentalmente inspirado. Também deverá ser fruto de trabalho duro, de sucessivas revisões bem feitas, de uma produção consciente. E para se fazer escolhas conscientes é preciso ter um profundo senso de autocrítica e conhecimento técnico.

Consideramos que todas as técnicas de escrita são ferramentas úteis. Como o cirurgião usa o bisturi, nós – escritoras e escritores – usamos a língua escrita. Assim como ele possui diferentes técnicas de corte, a depender do que deseja fazer, temos técnicas literárias que nos ajudam a escrever melhor. E quanto maior o domínio das nossas ferramentas, maior é nossa consciência de escolhas textuais e, portanto, nossa habilidade de quebrar e torcer essas mesmas ferramentas, alcançando outro patamar.

Por isso julgamos muito importante o domínio dessas técnicas, para que possamos fazer escolhas conscientes em nossa produção textual.

Retornando à comparação com o cirurgião, para se escrever bem é preciso conhecimento. Cirurgiões estudaram; primeiro, para serem médicos, para, então, fazerem residência em cirurgia e especializações consecutivas. Sabem empregar instrumentos cirúrgicos e conhecem a anatomia humana. Tiveram preparo, aprendizado, experiência e técnica. Ao nos submetermos a uma cirurgia, confiamos nisso. Por que não exigirmos o mesmo de nossas autoras e autores?

Na verdade, muitos de nós exigem. A crítica com certeza o faz e nós, na posição de leitoras e leitores, conseguimos quase sempre diferenciar uma peça genial de uma obra escrita sem cuidado. Claro que precisamos considerar que o gosto dos diferentes públicos se adequa a esta ou aquela autora ou autor. Temos públicos os mais diversificados e, na condição de produtores de arte, a nossa excelência não é tão imediata e vital – no sentido mais visceral da palavra – quanto a de um cirurgião. Ninguém vai morrer por ler um livro ruim. Por isso, ao consumirmos livros, nem sempre prezamos pela mesmo grau de excelência que esperamos de um profissional em outras áreas. Mas boas escritoras e escritores não apenas possuem a exigência de um segmento de público que demanda qualidade e apuro literário, como são exigentes consigo mesmos. Por isso buscam sempre melhorar e aprender, para se tornarem mais capazes naquilo que fazem. Afinal, a literatura pode não salvar vidas doentes, mas tem outros papeis tão importantes quanto: contar e preservar histórias, mudar paradigmas de pensamento, modificar sociedades. Ou, pelo menos, ajudar pessoas em momentos difíceis.

Esse aprendizado e busca pela excelência podem ser alcançados por meio de  estudo acadêmico e sistemático das diversas técnicas de escrita, leituras atenciosas às construções textuais de grandes obras, autocrítica e abertura à crítica alheia. Não é por acaso que toda grande escritora ou escritor dá o mesmo conselho: leia e escreva. Escrever é um aprendizado constante, e quem escreve aprende algo de todas as fontes. Boas escritoras e escritores sempre estão aprendendo, pesquisando e criando. E tentando, cada vez mais, produzir textos com escolhas conscientes.

Uma escolha consciente é saber porque se está usando determinada palavra, ou porque determinada estrutura textual está sendo empregada e porque ela é melhor, para aquele trecho, do que outra. É perceber quando uma metáfora ou comparação está sendo condizente com o cenário ou com a personagem do ponto de vista da narrativa. É empregar conscientemente um dos tipos de narrador e saber o porquê dessa escolha. É resolver que, naquela passagem, usará o recurso narrativo de contar em vez de mostrar.

Escritoras e escritores alcançam a excelência não por dominarem as técnicas de criação literária, mas por, conhecendo-as e dominando-as, conseguirem torcê-las para empregá-las de uma maneira diferente – ou mesmo escolhendo ignorá-las. Essas pessoas, mais do que domar, dialogam com suas obras. Procuram caminhos para contar uma história da melhor maneira, encaixam a palavra certa e usam ou deixam de usar quaisquer recursos que tenham em seu arcabouço.

Na imensa maioria dos casos, escritoras e escritores que não fazem escolhas conscientes são reféns de suas obras, e quando as lemos ficamos com uma impressão inconclusiva sobre o texto, algo como “é até bom, mas poderia ser melhor”. Escritoras e escritores que se aferram a essas ferramentas como regras axiomáticas e eternas costumam se limitar e não conseguem pensar fora da caixa. Mas quando você escolhe a palavra certa e lê a frase em voz alta… Há poucas sensações melhores no mundo.

Nossa dica de hoje é: aprenda e use as técnicas de escrita no que for útil e faça escolhas conscientes no seu texto. E continue escrevendo fantasia.

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Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
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