Deux ex Machina – o que é e como evitar

Um erro de plot comum entre autoras e autores iniciantes é utilizar o Deus ex Machina – literalmente, “Deus da Máquina”. Esse termo faz referência ao drama grego, quando, em algumas peças, uma crise aparentemente insolúvel era resolvida por um deus – trazido ao palco em um intrincado maquinário – com seus poderes divinos. Na literatura, ocorre quando a pessoa quer tanto manter as personagens nos trilhos e a história da forma como a imaginou inicialmente que apela para acontecimentos aleatórios e intervenções pouco prováveis. Um exemplo:

“Uma princesa foi sequestrada por um dragão. Ninguém conseguiu resgatá-la. Na hora em que o dragão vai matá-la, um raio o acerta e ele morre. Fim.”

O problema com o Deus ex Machina é que pode demonstrar que a escritora ou escritor não definiu muito bem a plot ou que não consegue, por meios críveis, mantê-la dentro do planejado. Pode ser visto como imaturidade na escrita, uma saída fácil para problemas e situações que a autora ou autor não previa. Também pode gerar frustração para a pessoa que lê, que se sente enganada pela resolução “do nada”.

Socorro! Agora não sei como evitar esse Deus ex Machina!

Calma, a gente explica. O Deus ex Machina tem um extremo oposto, a técnica de “telegrafar”, isto é, contar nos mínimos detalhes tudo o que irá ocorrer, focando tanto numa possível solução que a saída já está completamente óbvia para a pessoa que lê. O ideal seria um “balanço” entre as duas coisas, que chamaremos de “prenunciar”.

Na prática, com exemplos:

Deus ex Machina:

Um dragão do mal que quer dominar o reino captura a princesa para se casar com ela. Um cavaleiro de armadura brilhante aparece para resgatá-la. Ele enfrenta o dragão, mas não consegue matá-lo. Por fim, o dragão desarma o cavaleiro. O Cavaleiro Ele está cansado, machucado, caído entre o dragão e um despenhadeiro. O dragão, então, faz o seu discurso de super lorde do mal antes de matar o cavaleiro, enquanto a princesa observa, desesperada. Mas, no momento em que o dragão está dando sua risada de gênio do mal, ele agarra a própria garganta. Engasga, começa a tossir e agarra a própria garganta em desespero. Arqueja e cai. O cavaleiro rola para o lado para evitar o corpanzil e a princesa corre ao seu encontro. O dragão luta para respirar, espuma branca saindo de sua boca. Enquanto o casal foge, conseguem ver um pedaço de cogumelo preso entre os dentes do vilão. Eles se casam e vivem felizes para sempre.

Telegrafado:

No começo da história, o narrador declara que a princesa é especialista em venenos. Discorre exaustivamente sobre como a princesa é boa em reconhecer e administrar todo tipo de substância tóxica. Quando o dragão a sequestra, o narrador descreve em detalhes uma árvore em seu covil como sendo o local perfeito para cogumelos venenosos. Então, apresenta uma cena da princesa escapando durante à noite e indo até a árvore. Por fim, ela se oferece para cozinhar o jantar do dragão.

Prenunciado:

O dragão obriga a princesa a cozinhar e limpar o covil. Porém, uma vez por semana, permite que ela caminhe por uma hora pelos jardins que circundam o covil. Durante essas caminhadas, ela se perde em seus pensamentos, refletindo sobre sua vida, seus pais, seus arrependimentos e sua situação atual. Ela vê uma árvore que traz uma boa lembrança de sua infância. Ela viajara com sua família para o sul. Em frente ao castelo, havia uma árvore frondosa com um balanço. A ama, uma mulher anciã cujas origens remontavam à velha ordem, deu permissão para que ela se balançasse, mas a advertiu sobre os cogumelos que cresciam na copa da planta. Ela ficara encantada – no norte não havia árvores frondosas como aquela. A lembrança a faz perceber sua localização. Ela continua pensando em jeitos de tentar escapar.

 

Assim, se a intervenção parecer aleatória, não use – a menos que isso faça parte de um plano maior ou que seja um elemento que vá compôr seu cenário a longo prazo. Da mesma forma, se você ficar trinta linhas dando dicas de como o conflito irá ser resolvido, não haverá nenhuma surpresa para leitoras e leitores. Tente arranjar um meio termo e você não terá problemas.

Mais fácil, só se desenharmos =)

Tenha uma boa semana e continue escrevendo fantasia!

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