Quase um primeiro capítulo

Começamos o projeto do livro conjunto há aproximadamente 9 meses. A ideia inicial se desdobrou em um segundo projeto, este blog, contando nossa experiência e também trazendo um pouco do que aprendemos escrevendo.

Nesses nove meses, nós planejamos, discutimos, criamos conceitos, abandonamos conceitos, refizemos o trabalho, construímos um cenário, civilizações, leis cósmicas, mitologias e histórias. Construímos as personagens e também fizemos as plots do livro, tanto as de cenário macro como as pessoais. Decidimos, por fim, o esqueleto da história.

E, então, não nos restou mais nada senão escrever.

Nosso plano inicial, como já contamos, era que um de nós escrevesse um capítulo em duas semanas. Depois disso, passaria para o outro, que o revisaria/reescreveria em uma semana. O capítulo voltaria para quem o escreveu, para uma última revisão, enquanto o próximo capítulo começaria a ser escrito por aquele que revisou/reescreveu o anterior.

Na teoria, estava tudo certo e lindo. Infelizmente, a prática e a vida real discordaram um pouco da gente.

Tiramos no par ou ímpar quem começaria. Eu, Bruno, fiquei responsável pelo primeiro capítulo. E vou dizer, que parada dificil é começar.

Não estava conseguindo. Na verdade, enrolei boa parte das duas primeiras semanas, sem conseguir escrever uma linha que me agradasse. Fiz três esboços e os apaguei entre o terceiro e quarto parágrafo (do que me arrependo; o texto poderia ter ficado como material de consulta posterior).

Nesse meio tempo, fui evasivo e procrastinador. Não estava conseguindo dar o tom das personagens ou do cenário conforme queria. No deadline, não tinha nada e me desesperei, claro. Sentei na varanda, me servi uma dose de Gentleman Jack, fiz toda a pose de escritor intelectualizado e comecei a escrever. Afinal, eu precisava entregar alguma coisa.

No dia seguinte, eu entreguei alguma coisa. Uma coisa horrível e mal-escrita, cheia de clichês batidos e saídas fáceis. Como não poderia deixar de ser, a revisão da Luísa foi implacável. Nunca vi antes tantas marcas de correção e comentários em um texto meu. Apontamentos pertinentes e que, eu sabia, eram mais que merecidos.

Não sendo tão cruel comigo mesmo, não estava tão ruim assim. Para alguns padrões e pessoas menos críticas que a Luísa ou eu mesmo, estaria razoável, talvez até mesmo bom. Mas se fosse o oposto, se ela houvesse me entregado aquilo, eu provavelmente teria feito ainda mais marcas e comentários bem menos contidos.

Vamos começar pela moral da história: escrever bem, direito e com qualidade não é fácil. Não importa quão sensacional e quão inspirado possamos estar, é preciso tempo, trabalho e paciência para tornar um texto bom. Eu não tive inspiração, trabalho ou paciência para isso, e o tempo que tive, eu desperdicei procrastinando com outras coisas. Coisas bem desnecessárias, na verdade.

Os problemas desse quase primeiro capítulo foram vários. O primeiro deles, nós já discutimos aqui no blog: os nomes. A estrutura linguística e a inspiração inicial dos idiomas soavam muito europeias medievais.

Segundo problema, as saídas fáceis. Quando se está com pressa para escrever, é muito mais fácil usar um advérbio em vez de fazer a descrição, ou um clichê batido para já evocar uma imagem do senso comum. Tudo isso empobrece o texto e havia muitas dessas passagens nesse quase primeiro capítulo.

Terceiro problema, a falta de revisão. Uma regra geral é que todo primeiro rascunho será ruim. Não importa o quão inspirado se esteja, sempre haverá o que melhorar depois, ao revisar. E para uma boa revisão, o ideal é deixar o texto descansar um pouco e depois pegá-lo de volta, já arejado das ideias que se tinha ao escrevê-lo pela primeira vez. Como fiz esse primeiro capítulo já no deadine, não deu tempo para uma revisão acurada e crítica – que poderia ter me poupado alguns embaraços.

O quarto problema, desbobramento dos dois anteriores, é que o texto estava cheio de pequenas falhas, como, por exemplo, contava muito sem mostrar a cena. Há um conceito técnico de escrita em que se diz: “mostre, não conte”. Não há, claro, nenhuma regra escrita em pedra sobre como se escrever um texto. Na verdade, seguir a receita de bolo de todas as técnicas pode, ao final, deixar o texto batido e sem criatividade. Mas é importante, ao se quebrar a técnica, ou dobrá-la, fazê-lo de forma consciente. Não foi assim que o fiz, resultando nesse quase primeiro capítulo cheio de pequenos problemas.

E por fim, e mais importante: não deu certo. Tudo acima poderia ter sido reconstruído, revisado, refeito, ajustado. Não era apenas uma questão técnica, afinal. O primeiro capítulo, no fim das contas, não servia como primeiro capítulo. A história dele não tinha o clímax ou o gancho para atrair quem lê, mas sim parecia um interessante capítulo de transição mais para a frente da história.

Nós conversamos e, depois dessas conclusões acima, resolvemos que o ideal seria guardar esse texto e tentar de novo com um outro novo primeiro capítulo.

Esse, por sua vez, teve outros problemas, mas isso fica para a próxima postagem.

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Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
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