Suspensão de Descrença – Como convencer quem lê do impossível

“Suspensão de descrença” é um termo cunhado em 1817 pelo poeta Samuel Taylor Coleridge e diz respeito ao estado que uma leitora ou leitor atinge ao ignorar preceitos básicos da Ciência ou do senso comum. Na literatura especulativa, a suspensão de descrença é o que permite às pessoas acreditarem que, no universo do livro, a magia é possível, dragões dominam o mundo ou vampiros ciborgues têm uma organização secreta de ladrões de cupcakes.

Embora o ônus pareça estar na leitora ou leitor, cabe a quem escreve construir bases sólidas para que as pessoas possam se sentir à vontade e mergulhar na história. E, como tudo na escrita, qualquer deslize pode colocar a perder todo o trabalho realizado por tantas páginas. Por isso, reunimos os elementos básicos que ajudam a criar (ou quebrar) a suspensão de descrença e mostramos para você como podem ser usados para dar credibilidade à sua história.

 

Descrição

É o elemento básico. Uma boa descrição faz com que a leitora ou leitor se sinta no ambiente, experienciando o que a personagem experiencia.  Sempre descreva o cenário, as impressões das personagens, seus sentimentos (considerando, claro, o seu narrador e as limitações dele). E lembre-se: a boa descrição procura engajar os cinco sentidos. Assim, se a sua personagem está em uma praia, por exemplo, não fale apenas sobre os elementos físicos visíveis: aborde a sensação da areia em seus pés descalços, os cheiros de maresia e peixe, os sons das ondas e gaivotas, o gosto de sal em sua boca, as memórias e emoções que todas essas sensações despertam nela. Mas cuidado! Descrição demais pode se tornar enfadonho e jogar quem lê para fora da história.

Portanto, não tenha preguiça. O maior problema com descrição é que quem escreve costuma preferir saídas fáceis, como o uso de advérbios ou clichês. Esmere-se em fazer uma boa descrição, condizente com a cena e que mantenha o clima. Trabalhe bem os sentidos e as metáforas, para que não sejam batidas ou não tenham quaquer relação com as personagens ou a história.

 

Correção técnica

Para se “jogar” na história, suas leitoras e leitores devem confiar em você, e existem poucas coisas que abalam mais essa confiança do que erros técnicos. Embora existam inúmeros tipos de erros, os mais comuns são: erros de português, erros de continuidade e mudanças não propositais de narrador.

Erros de português englobam concordância nominal e verbal, grafia de palavras, pontuação… Já os erros de continuidade são aqueles onde a lógica de sua história é quebrada pela inserção de um elemento que contradiz uma premissa anterior. No cinema, os erros de continuidade são muito comuns nas cenas de diálogos, quando a câmera foca uma personagem de cada vez. Como as atrizes e atores costumam filmar uma mesma cena várias vezes e essas cenas podem ser misturadas na edição, é comum que, durante um mesmo diálogo, uma atriz esteja com o cabelo solto e logo depois preso, ou comendo uma maçã e, do nada, um pão. Outro erro comum acontece quando um elemento de fora aparece na cena, quebrando todo o “clima” – como, por exemplo, no começo do filme “O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel”, quando um carro aparece cruzando uma estrada no pano de fundo de Frodo e Sam. Em livros, erros de continuidade são mais comuns na lógica interna da própria história. Não é raro em sagas longas, por exemplo, que personagens mortas reapareçam livros depois sem qualquer razão, senão porque o autor ou autora esqueceu-se da morte daquela personagem, ou que uma regra estabelecida ao longo da história seja quebrada para se adequar a uma determinada plot, sem haver, novamente, uma explicação plausível.

Por fim, as mudanças não propositais de narrador são erros comuns de autoras e autores inexperientes. Ocorrem quando a história está sendo contada em um narrador e o foco narrativo “escorrega” – um narrador em primeira pessoa, por exemplo, tem acesso aos pensamentos de outra personagem, ou um narrador em terceira pessoa ganha onisciência.

Nossa sugestão é que você estude um pouco sobre técnica, para que seus “erros” sejam conscientes. O importante aqui não é seguir a receita do bolo, mas conhecê-la bem e saber o que está fazendo ao adicionar uma pitada de sal que não deveria estar lá. Pense que a correção técnica é uma ferramenta de trabalho de quem escreve. Você pode deixar de usá-la, torcê-la para fazer algo completamente diferente ou mesmo segui-la, mas sempre de maneira proposital e pensada.

 

Coerência

A coerência é o que mantém os elementos fantásticos de sua história críveis. Não significa que tudo no seu mundo tem que fazer sentido da forma como entendemos no nosso – mas que as pessoas que existem nele, na maior parte do tempo, reagem de forma coerente ao que é colocado. Da mesma forma, os acontecimentos e situações devem, até certo nível, ter coesão com as premissas do mundo. Por exemplo, em um mundo onde a magia é comum e usada por todos no dia a dia, não é coerente que uma personagem criada na principal cidade do mundo se impressione com uma magia simples – a não ser que você dê uma boa explicação para isso, como pontuar que a personagem viveu trancada em uma torre sem contato com a humanidade.

Para manter a coerência, existem algumas dicas: mantenha um registro, um material de referência e não confie apenas em sua memória. Livros podem levar meses ou anos para serem escritos e é fácil se perder tentando guardar tudo na cabeça. Esses registros podem ajudar muito o seu trabalho.

 

Bônus: suspensão de descrença x escrever sobre o que não se conhece

Não há nada de errado em ambientar uma história na Escócia se você nunca pisou fora de sua cidade no Brasil. O único problema é que, ao escrever sobre algo que não conhece, você corre o risco de cometer erros que quebrarão a suspensão de descrença de pessoas que, por algum motivo, conhecem a cultura e geografia da localidade. Além disso, é muito mais difícil descrever situações e cotidianos que nunca vivenciou. Por exemplo, como descrever a extensão do frio do inverno europeu, se nunca experienciou a neve? E como ambientar uma história numa high school norte-americano se não sabe como funciona a grade horária nas escolas daquele país?

É possível, com muita pesquisa e trabalho duro, romper essas barreiras. Porém, a chance de incorrer em clichês e de construir um texto que é uma cópia de menor qualidade de histórias estrangeiras é alta. Por isso, se optar por escrever sobre algo que não conhece, aprofunde-se e, mais uma vez, não tenha preguiça.

E você, como constrói a suspensão de descrença em seus trabalhos? Tem alguma outra dica?

Anúncios
Esse post foi publicado em Teoria e Técnica e marcado , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Suspensão de Descrença – Como convencer quem lê do impossível

  1. Pingback: 7 dicas para usar (bem) metáforas | Escrevendo Fantasia

  2. Pingback: Sistemas místicos na literatura especulativa | Escrevendo Fantasia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s