Nomes e o que representam

Nós, Luísa e Bruno, jogamos rpg. Não que tenhamos feito isso ultimamente, mas é seguro afirmar que esse hobby em comum foi o que nos uniu em primeiro lugar, especialmente D&D.

(Atenção, para você que sabe o que é rpg e D&D, o próximo parágrafo é completamente desnecessário)


Se você não está familiarizado com isso, rpg significa role playing game, ou jogo de interpretação de papeis. É um jogo em que alguém narra uma história e os demais interagem dentro dela. Essa pessoa que narra, usualmente chamada de mestre ou narrador, cria um cenário e uma plot. Os demais jogadores criam personagens, de acordo com regras estabelecidas por um sistema. Um desses sistemas é Dungeons and Dragons, ou D&D, voltado especialmente à fantasia medieval. urgiu nos Estados Unidos com grande influência de autores de fantasia, como Tolkien, por exemplo.

(Você que pulou o paragrafo pode voltar a ler agora)

Jogar rpg diz algumas coisas sobre nós, mas vamos nos ater a duas: gostamos de contar e desenvolver histórias, e nossa formação na literatura fantástica é muito influenciada pelo jogo.

Claro que, além do rpg, temos muitas outras influências inglesas e estado-unidenses vindas da literatura. Impossível não citar Tolkien, Neil Gaiman, Marion Zimmer, George Martin, Susana Clark, Terry Pratchet, Isaac Asimov, apenas para citar alguns.

Ou seja, temos uma vasta influência e formação advinda do inglês, da cultura européia e norte-americana de fantasia. Na verdade, a imensa maioria dos trabalhos de escritoras e escritores brasileiros com que tivemos contato parece ter essa mesma fonte de inspiração para a fantasia.

O que povoa o imaginário de quem escreve literatura especulativa são velhos magos e feiticeiros, castelos no alto de montanhas, cavaleiros com espadas e armaduras, cavalos grandes e velozes, estações do ano bem delimitadas, neve e, especialmente, nomes ingleses – ou, no máximo, europeus. Às vezes, para dar algum toque de exoticidade, nomes árabes, indianos, chineses, japoneses. Ou então, para o toque místico, latim e grego.

Se você já acompanha o blog  – e caso não acompanhe, contamos agora -,  nossa proposta aqui é justamente tentar criar algo dentro da literatura especulativa que tenha cara e  inspiração brasileira e tropical.

Existem muitos desafios para isso. E o primeiro deles é desconstruir nossa própria perspectiva de fantasia como a velha e batida fantasia medieval europeia.  Acreditamos que uma parte muito relevante desse processo sejam os nomes que usamos.

Nós conseguimos criar um cenário tropical. Pensamos nas implicações disso nas etnias, nas culturas, economias, modas. Mas, em relação aos nomes, em um primeiro momento  fizemos duas coisas erradas.

A primeira foi o nome que escolhemos para uma das premissas do cenário. No nosso primeiro post aqui no blog, colocamos em nossa premissa que a energia intrínseca a alguns humanos se chamava Anima. E, depois, na postagem “Criação de mundo – História e Culturas” dissemos:

“Como não somos Tolkien e filólogos profissionais, baseamos nossas línguas na matriz do latim e escolhemos línguas derivadas para cada sociedade (português, italiano, francês, espanhol, romeno), de forma a manter justamente esse critério de existência de uma língua mãe anterior.”

Na época em que escrevemos o post já estávamos mais avançados nos processos do livro e já tínhamos percebido – e trocado – as influências linguísticas de nosso mundo – tanto é que, ao final do post, falamos que havia algo errado em nossa premissa. O que nos incomodou, tanto em relação ao nome “Anima”, quanto às matrizes linguísticas escolhidas, é que Anima é um termo grego e todas as línguas que escolhemos são europeias.

Isso é um pouco contrário ao nosso pressuposto, não? Tivemos uma conversa sobre isso. Na verdade, foram duas conversas. A primeira foi sobre o termo “Anima”. Admito que eu, Bruno, defendi bastante mantermos esse nome. Gosto dele, acho que gera uma identificação maior com o público, que é mais aceitável e reconhecível. Mas a Luísa pontuou bem que isso era muito contrário à nossa proposta, que poderíamos fazer diferente e que deveríamos usar um nome mais próximo do nosso pressuposto. Concordamos, enfim, em mudá-lo. Após algumas tentativas de novos nomes, surgiu um que agradou a ambos: “Anga”.

Anga é uma palavra derivada do Iorubá e significa poder, energia. O significado era perfeito, a sonoridade é excelente e é o que procurávamos como matriz tropical/brasileita. Então, ficou decidido, e estamos bem certos que há pouca chance de mudar isso no futuro.

A segunda conversa aconteceu após o primeiro rascunho de um potencial primeiro capítulo, que foi escrito usando as matrizes linguísticas que havíamos combinado, ou seja, as europeias. Quando o relemos, vimos de imediato que estava errado. Não era o que queríamos, estava soando europeu demais. Por isso, decidimos mudar as matrizes linguísticas das nossas culturas, baseando-as nas principais matrizes que formam o português brasileiro: linguagens indígenas, linguagens africanas e o português. Com base nisso, redefinimos as línguas, alterando as proporções de influências dessas matrizes e adicionando peculiaridades a esses idiomas – uso mais comum de determinados fonemas, inexistência de outros, essas coisas. Isso fez tudo soar muito melhor.

É claro que, eventualmente, ainda perceberemos mais coisas que nos escapam, A desconstrução da fantasia medieval – a qual adoramos, que fique claro – é um exercício diário, difícil e que exige um alto nível de consciência e auto-crítica. Mas bem, ninguém disse que ia ser fácil, não é?

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Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
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