Como criar seu mundo

Na literatura especulativa, principalmente na fantasia e ficção científica, é comum que as histórias não se passem no planeta Terra – ou que se passem numa versão da Terra tão remota ou diferente que a semelhança com o mundo que conhecemos é bastante vaga. Mesmo na fantasia urbana ou no horror, cujas histórias costumam se basear na sociedade contemporânea, é importante pensar o mundo a partir das mudanças que os elementos fantásticos que compõem a história (fantasmas que se alimentam de notas musicais ou cachorros de rua com poderes de telecinese, por exemplo) poderiam causar na sociedade. Por isso, é importante estabelecer os paradigmas de seu mundo, antes mesmo de começar a escrever.

Como nossa experiência inclui a criação do mundo onde a história de nosso livro irá se desenrolar, focaremos na construção de um cenário a partir do zero. Porém, as dicas também podem se aplicar a mudanças (pontuais ou drásticas) na Terra. No post de hoje, falaremos especificamente da construção de mundo e geográfica do cenário.

A geografia do seu mundo é uma das primeiras coisas que você deve pensar. Mesmo que algumas das informações nunca apareçam em sua história, é importante ter em mente as características físicas de seu cenário – até para efeitos de plot, já que muitas ideias podem surgir das peculiaridades do universo em que está inserido, das relações cósmicas, de um terreno em particular, dos acidentes geográficos, da maior ou menor presença de água, etc.

Nossa sugestão é que, na criação, você comece “de fora para dentro”. Elaboramos uma lista de perguntas que pode ajudar nessa construção. Não é uma lista definitiva (até porque cada pergunta pode ter diversos desdobramentos), mas um guia geral. Além disso, para trabalharmos melhor a construção geográfica de um mundo, dividimos essas perguntas em quatro esferas, baseados em nossas experiências e leituras, sem comprometimento específico com as teorias tradicionais de criação de cenário: nível cosmológico, global, geológico e ecológico. Por fim, no passo extra, entram o que chamaremos de elementos inexplicáveis.

 

Primeira esfera: nível cosmológico

Cosmos é um termo que vem do grego e significa ordem, organização, beleza ou harmonia. É a palavra que usamos, tanto na filosofia quanto na astronomia, para definir a totalidade ou o universo.

A primeira questão a se pensar é qual a origem cosmológica do seu cenário. Ele faz parte de um universo vasto e infinito, cujas explicações de existência podem ser investigadas pela ciência, ou ele foi criado por um ou mais seres divinos que são o início de tudo? No segundo caso, esse ou esses seres criaram todo o universo como o conhecemos ou apenas seu mundo, e esse mundo é tudo o que existe?

Na primeira situação, é preciso definir quais as regras da física que se aplicam ao seu cenário. Usualmente, usamos as regras da nossa própria realidade. Isso, no entanto, não é obrigatório, embora demande um esforço e conhecimento mais profundo para modificá-las e entender as consequências disso. No segundo caso, as explicações decorrem da vontade e existência desse ou desses seres, e definem o conjunto de regras válidas como a base do seu cenário.

Em qualquer dos dois casos, o importante é que haja coerência dentro do sistema definido, para que o seu universo alcance organização e harmonia. Ou seja, é preciso que as regras da existência do seu cenário sejam críveis, por mais absurdas que possam parecer. Até mesmo um deus (ou um panteão) cria um mundo ou universo de acordo com regras mínimas que o regem – embora nessa situação, isso permita também que essas regras se alterem a qualquer momento (o que pode ser um excelente gancho de plot).

(Porém, tenha em mente que tentar inovar demais pode ser genial ou problemático. Você precisará ter um cuidado muito especial para, por exemplo, dizer que a gravidade não existe. Isso implica em um mundo onde as coisas não são fixas no chão, onde o conceito de peso não existe, onde ancoras precisariam ser fixas sempre em um ponto do chão. Mudar regras tão basilares e estruturais têm consequências imensas e dão uma grande margem para furos. Por isso, muito cuidado.)

Ao pensar em um cenário e definir seus parâmetros de criação, passa-se à situação cósmica: como o mundo se relaciona com o cosmos, com o universo, com a vida e tudo o mais. Algumas perguntas para guiar sua construção:

– Seu mundo faz parte de um universo infinito? Ou ele existe apenas em si mesmo e é o centro do cosmos?

– Ele está em um sistema solar? Quantas estrelas ele orbita? Como funciona sua relação com o sol, outras estrelas ou outros planetas?

– Qual a posição dele com relação a(s) estrela(s) mais próxima(s)? Ele a órbita ou elas o órbitam?

– Qual o tamanho e forma do seu mundo?

– Ele tem satélites naturais? Quantos? Como isso o influencia?

– Ele tem anéis de asteroídes? Quantos? Como as pessoas que habitam vêem esses anéis no céu?

– Como se conta a passagem de tempo?

– Se ele orbita em torno de uma estrela, qual o tempo que ele leva? Se não, como se dá a passagem de tempo?

– Se ele gira em seu próprio eixo, qual o tempo que leva? Se a estrela gira em torno dele, quanto tempo leva?

 

Segunda esfera: nível global

Definida a posição do seu mundo, a partir dos elementos cósmicos, você terá maiores dados para tomar outras decisões que dizem respeito à sua estrutura global. Queremos com isso pensar nos fatores que o atingem como um todo. Nesse nível estão as perguntas referentes à idade geológica, composição atmosférica, composição terrestre, dentre outras. O importante aqui é definir como funciona seu cenário em uma escala física global.

Novamente, isso pode ter uma definição muito simples, tendo a nossa realidade como parâmetro básico. É preciso também ficar atento para que essas definições, quando naturais, possam se integrar sem furos.

No caso de um mundo misticamente criado por entidades divinas, o trabalho pode ser tanto mais simples quanto mais complexo. Entidades possuem propósitos, intenções e vontades. Elas modelam o mundo de acordo com algo, seja um jogo entre elas, a intenção de conseguir mais poder, seja para salvar as pessoas que o habitam, ou guiá-las em alguma direção. Mais uma vez, o importante aqui é que os elementos sejam coerentes com o sistema escolhido. Um mundo com um subterrâneo oco e rico em vida, por exemplo, precisaria de explicações quanto a terremotos e vulcões sem considerar as placas tectônicas. Para isso, algumas perguntas podem ser úteis:

– Qual a atmosfera de seu mundo?

– Qual o principal elemento vital do seu mundo (água, metano, carbono, silício)?

– E a temperatura média?

– Quanta água (ou outro elemento vital que faça esse papel) existe nesse mundo?

– Se for água, qual a parte doce e salgada? Onde se localizam?

– O planeta tem alguma característica muito diferente da nossa realidade? Qual?

– Como essa característica interage com o resto do mundo?

– Quantas massas continentais, ilhas e arquipélagos existem?

– Quais as delimitações dos círculos polares e das zonas tropicais? Elas obedecem uma determinação natural ou mística?

– Como e quantas são as estações do ano?

– Qual a duração do dia (se existir dia)? E do ano?

– Já sofreu algum grande fenômeno geológico (era de gelo, choque com meteoros, explosões de supervulcões) que dividiu suas eras geológicas? Qual(is)?

A maioria das respostas a esse segundo grupo de perguntas se dará pela definição dos elementos do primeiro grupo, então aconselhamos que preste muita atenção nas suas respostas anteriores (por exemplo, um planeta muito próximo de uma estrela não seria coberto de gelo). No nível global, você estará definindo as condições gerais de temperatura e pressão do seu cenário, mesmo que os habitantes desse mundo não tenham acesso a todas essas informações.

 

Terceira esfera: nível geológico

Decididos os fundamentos cósmicos e globais, passamos às definições mais especificas, ou seja, é hora de fazermos a descrição física do cenário. Esse passo se preocupa com a situação atual do seu mundo, como estão as formações dele no momento de início da história.

Algumas possíveis perguntas que poderão ajudar:

– Existe um tipo de área geográfica predominante (continentes, ilhas, pedras voadoras)? Qual?

– Ele possui outras áreas geográficas diferentes ou se parece como um todo?

– Se é dividido em áreas, como é cada uma?

– Existem fenômenos geológicos severos que alteraram drasticamente sua paisagem? Quais foram e onde ocorreram?

– Quais os principais acidentes geográficos (rios, montanhas, mares, lagos, depressões, planaltos) do seu cenário que formam suas paisagens?

– Existe algum principal recurso natural (minérios, água, fontes de energia mística)? Algum deles é particular do seu cenário?

– Quais os recursos mais abundantes? Quais os mais raros?

– Onde esses recursos naturais se encontram?

– Existem oceanos e mares no seu mundo? Como eles se relacionam com a parte terrestre?

Responder às questões e pensar seu mundo nesse nível geológico ajudará a ter uma construção sólida que poderá ajudar tanto nas plots quanto na exploração do mundo através dos olhos das personagens. Conhecer seu cenário dará segurança para narrá-lo, para criar mais sobre ele e evitará que haja furos nas suas descrições, ou incoerências que poderão tirar quem lê da suspensão de descrença.

 

Quarta esfera: ecologia

A ecologia de um cenário diz respeito às relações entre os seres vivos que compõem o bioma natural. Engloba os ciclos naturais, os tipos de ecossistemas, a formação da fauna e flora. A ecologia demonstra o ambiente natural do seu mundo, aquele que não foi tocado, ou que reage ao toque, das raças cognoscentes que podem existir. Além dos recursos naturais designados no passo geológico, aqui em ecologia decidimos outros possíveis recursos, como madeira disponível, alimentos e riscos biológicos.

Note que, novamente, as respostas dos grupos anteriores influenciarão as decisões desse grupo. A ecologia se desenvolve sobre os parâmetros geológicos. Aqui temos algumas das perguntas que poderão auxiliar na construção dessa parte do cenário:

– Existe alguma particularidade quanto aos ciclos naturais dos elementos (água, nitrogênio, carbono, etc)?

– Qual a disponibilidade e abundância desses recursos naturais no ambiente?

– Quais as vegetações e ecossistemas predominantes?

– Onde esses ecossistemas se localizam? Existem áreas de transição?

– As plantas e os animais são parecidos com os da Terra?

– Existem criaturas inventadas por você no seu mundo? Existe a necessidade delas?

– Elas possuem uma classificação própria? Quais são suas propriedades especiais?

– Como são e como se conectam na ecologia do seu cenário?

– Quais as principais espécies presentes em cada bioma?

– Quais as principais cadeias alimentares deles? Do que se alimentam no seu mundo?

– Quem são os principais predadores?

– Qual a situação atual do meio ambiente no seu cenário?

Essas perguntas contemplam alguns aspectos da criação de mundo. Você pode adicionar mais perguntas à sua lista, ou escolher, dentre as apresentadas, as perguntas que vai responder. A profundidade do detalhamento pode variar de pessoa para pessoa – algumas pessoas gostam de ter seus universos mais detalhados, outras gostam de ter um esquema geral que vão “colorindo” à medida que suas histórias crescem. De qualquer forma, é essencial ter no mínimo uma ideia dos elementos básicos de seu mundo para criar um cenário verossímil.

 

Esfera extra: os elementos inexplicáveis

Como lidamos com universos fantásticos, não há problemas se você colocar algum elemento inexplicável na equação. Desde que o restante das leis de física e preceitos químicos e biológicos estiverem consistentes e coerentes, o elemento inexplicável não irá parecer uma falha, e sim algo proposital que acrescenta à plot.

Nesse caso, no entanto, tudo depende da sua execução em apresentar esse elemento inexplicável. Por mais que possa parecer absurdo para nós, os habitantes do seu mundo lidam com ele e o naturalizam. Um exemplo claro disso são as estações do ano em “Crônicas de Gelo e Fogo”, que simplesmente acontecem sem previsibilidade, ou mesmo a dicotomia do inverno e verão em “Crônicas de Nárnia”, que seguem quem está governando as terras. Existem cenários onde montanhas flutuam, onde o subterrâneo é oco (“Viagem ao centro da Terra”, de Julio Verne). Tudo é possível na literatura especulativa. A questão é: você consegue fazer o elemento ser possível dentro do seu mundo?

Existem muitos guias e livros que falam sobre formação geológica de cenários. Quão fundo você irá nisso depende mais do seu grau de detalhamento e do que você acredita que precisa para começar uma história e torná-la crível. No entanto, lembre-se: se você achou um furo, é muito provável que seus leitores também acharão =)

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