Sobre a história que vamos contar

As decisões que tomamos ao longo das semanas anteriores foram de construção do cenário do livro. Até o momento tínhamos nossa premissa básica, alguns rudimentos da geografia do mundo, nossa mitologia principal e as personagens.

A partir das personagens que desenvolvemos, trabalhamos em três linhas de criação para terminar o básico e começarmos, finalmente, a escrever o livro: a plot (enredo), a história do cenário e as culturas (incluindo aqui os aspectos geopolíticos e sociais).

Essas três áreas estão intimamente relacionadas. Tomamos a decisão de tentar fazer um cenário complexo, amplo e interconectado. Isso significa que as nossas plots estarão ligadas à história do mundo, aos atuais aspectos culturais e geopolíticos do cenário, às decisões em microcosmos das personagens e aos eventos ocorridos pela aleatoriedade inerente de qualquer mundo – tomando cuidado para que esses eventos não se tornem Deus ex Machina. Uma outra decisão foi construir uma trama que não fosse maniqueísta, fugindo da típica luta do bem contra o mal.

A base da história do nosso cenário foi criada junto com a mitologia, dentro de uma linha cronológica. É importante lembrar aqui que, ao contrário do que aprendemos no Ensino Médio, a história não é apenas uma sucessão lógica e de eventos desencadeados por causas e consequências racionais e estanques. Na verdade, muitas vezes, a história não tem sentido racional, pois é formada por decisões de pessoas que agem de acordo com interesses e vontades, ou mesmo por uma sucessão de eventos que levam a uma conclusão completamente diversa do que seria esperado por nós, pessoas do futuro que a estudam. Isso foi uma das nossas discussões para criar a plot.

Nós  concordamos com a premissa de que a história não precisa fazer sentido, desde que tenha coerência em seu contexto. É uma diferença sutil, mas importante. Napoleão invadir a Rússia às vésperas do inverno pode nos parecer hoje sem sentido, mas há coerência para isso ter ocorrido. No entanto, apesar de termos a mesma visão sobre isso, temos perfis de escrita diferentes. Um de nós é um analítico disfarçado de indutivo, e o outro é um indutivo disfarçado de analítico. Ou seja, enquanto um quer pontas soltas bem colocadas, coisas que não precisam de explicação, o outro precisa amarrar todas as pontas e explicar tudo, mesmo que essa explicação jamais venha à tona.

Todos esses fatores geraram uma longa discussão sobre as plots. Para além dela, também geraram uma discussão sobre a história do mundo, eventos mais específicos do passado, as motivações das personagens – protagonistas, antagonistas, deuteragonistas – e  relações das forças políticas que atuam em nossa trama. Essas discussões enriqueceram imensamente a construção do cenário.

As histórias são compostas de um arco principal. Ou seja, o ponto inicial, que se eleva até seu clímax e acaba em um desfecho. Esse arco principal conecta diversos outros arcos, que subexistem na trama, criando plots  menores e muitas pessoais de cada personagem ou grupo que representa.

O nosso intuito era criar plots “cebolas”, em camadas. Elas incluem: arcos em um cenário geopolítico macro, ou seja, de alcance para várias culturas e que podem transformar o mundo; arcos restritos, aqueles que dizem respeito a uma sociedade, comunidade, ou grupo; e os arcos pessoais das personagens, que são o desenvolvimento delas ao longo do livro.

Nossas plots foram criadas ao longo de algumas semanas. As discussões foram longas e ocorreram tanto pessoalmente quanto pela internet. Como de praxe, boa parte da discussão ocorreu enquanto caminhavamos. Parece um bom modus operandi, ajuda a nos manter saudáveis. Conversamos sobre cada aspecto que achamos interessante, testamos tais acontecimentos no cenário para saber suas repercussões, analisamos se faziam coerência com toda a história e (exaustivamente) procuramos furos neles. Esse trabalho nos rendeu um arco principal conectado com a história do mundo, as motivações de cada força política envolvida nos conflitos que criamos, os elementos surpresas que surgirão durante a história e, principalmente, um começo, meio e fim, que é o objetivo de todo livro.

Um ponto interessante foi que, após fecharmos a plot principal e deixá-la redonda e bonitinha, surgiu um “e se…” no dia seguinte, que mudou toda a história. Esse “e se… “ basicamente negou toda a premissa da plot anterior, mas fez todo sentido dentro da mesma construção. A mudança desse evento no passado reconstruiu as motivações de diversas personagens, sem, no entanto, alterar o curso dos eventos seguintes. Esse trabalho de teste no cenário, de pensar nas implicações e em como os fios se movem e se conectam é um exercício extremamente interessante para quem escreve. Nossa preocupação é que o cenário seja orgânico. Ele precisa ser vivo, conectado, ser coerente. Isso cria a suspensão de descrença necessária ao leitor ou a leitora e fortalece a história.

Tudo isso discutido, fizemos o esqueleto da história. Cada escritor e escritora possui um método diferente de escrita e de trabalhar sua trama. Alguns fazem organogramas, outros pensam em linhas gerais e vão escrevendo. Nós decidimos dividir o livro em 4 partes (o que não significa que será uma quadrilogia. Mas essa é uma discussão para uma próxima postagem) e demarcamos os principais eventos em uma cadeia de acontecimentos.

Esses eventos são tanto fatos que ocorrerão na história quanto as decisões que as personagens tomarão para conduzir as plots ao caminho que escolhemos. Alguns deles são alheios a qualquer personagem, como desastres naturais, conjunções cósmicas, ressurgimento de um mal antigo. Outros são a decisão de uma personagem de buscar vingança, de querer justiça ou o simples fato de falar algo a alguém que não deveria saber daquela informação.

Nossa preocupação, portanto, é manter a coerência entre o arco principal, os arcos menores e os pessoais, com a integridade do cenário histórico e as conjecturas das forças geopolíticas envolvidas, considerando que nenhuma dessas personagens são perfeitas ou estúpidas. resguardando suas motivações pessoais.

Parece fácil, não? =P

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Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
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