Como dar profundidade à sua personagem

As personagens são os seres que vivem as histórias que você conta, que reagem e provocam os acontecimentos. São as personificações com quem leitores e leitoras vão se identificar – ou, ao contrário, por quem vão desenvolver repulsa. De qualquer modo, são os elementos que vão criar conectividade afetiva com o público.

Na literatura especulativa, as personagens não precisam ser pessoas. Podem ser animais falantes, seres mitológicos, robôs, alienígenas, o vento, uma pedra… Mas, mesmo que a personagem não seja humana – e, talvez, principalmente por isso -, é preciso desenvolver suas características, para que sejam críveis para os leitores e leitoras.

 

Funções das personagens

Antes de falar sobre desenvolvimento de personagens, entretanto, vamos fazer uma rápida recapitulação sobre as funções das personagens em uma história. Os protagonistas são as personagens principais, em torno das quais se constrói a trama. Antagonistas são as que criam a tensão, que se opõem às protagonistas. Deuteragonistas são personagens que, embora não sejam as principais, ainda têm destaque na história, como fiéis escudeiros, parceiros, sidekickers, etc. Personagens secundárias, ou de cenário, são as que não desempenham papel decisivo, mas fazem parte da construção daquela realidade.

Note que evitamos usar os termos “heroi” e “vilão”, tão difundidos na literatura especulativa, porque esse tipo de conceituação exclui os casos em que a personagem principal é um anti-heroi, ou mesmo um vilão. Após a popularização da série de livros “Crônicas de Gelo e Fogo”, aliás, surgiram na literatura especulativa várias histórias com personagens principais com poucas (ou mesmo nenhuma) características redentoras. Jorg Ancrath, por exemplo, da Trilogia dos Espinhos, de Mark Lawrence, começa no primeiro livro como um pré-adolescente mimado, sádico e inconsequente. Outro exemplo clássico é o psicopata Hannibal Lecter nos livros que seguem o seu ponto de vista (Hannibal e Hannibal Rising).

 

Personagens planas e redondas

Portanto, personagens não precisam ser mocinhos ou mocinhas para serem protagonistas, e vice versa. Os valores de sua personagem não precisam estar de acordo com a moral ou ética para que as pessoas consigam se relacionar com ela. Não precisa ser o super mocinho do bem ou a garota boazinha da perfeição. Embora seja seu trabalho como escritor ou escritora fazer as pessoas que lêem sua história se relacionarem com as personagens, isso não quer dizer que estas terão que ser destituídas de defeitos morais, ao contrário. Personagens muito perfeitas podem acabar por quebrar a credibilidade da sua história e dificultar o processo de reconhecimento do leitor e leitora naquela determinada personagem. Afinal, ninguém é perfeito, e na vida real as pessoas tem nuances, são multifacetadas.

Protagonistas que não tem defeito algum, já começam perfeitos e não crescem ao longo da história são chamados de personagens planas. Essas personagens não tem muita profundidade, como o próprio nome indica. Geralmente são baseadas em estereótipos. Suas emoções não são muito exploradas durante a história. Aproximam-se mais de arremedos de pessoas do que de uma pessoa real.

O mesmo acontece com antagonistas e personagens secundárias. É comum que escritores e escritoras iniciantes não coloquem nenhuma característica positiva em seus antagonistas, que estes sejam apenas a epítome do mal, sem sentimentos ou motivações profundas. No caso das personagens secundárias, é comum que recorram a estereótipos para “facilitar” o trabalho de escrita. Quem nunca leu uma história que tem, dentre as personagens secundárias, um esportista burro, um gordinho desajeitado, uma menina bonita sem coração?

(Você pode, é claro, usar um clichê. O problema aqui é usá-lo por preguiça ou comodidade, para não ter que pensar nas características das personagens.)

Assim, personagens redondas seriam aquelas que são multifacetadas, que apresentam sentimentos, contradições e crescimento ao longo da história. Mesmo que comecem a partir de um estereótipo, subvertem-no ou vão além dele.

 

Construindo personagens redondas

Como colocamos, sua personagem principal não precisa ser agradável para gerar conexão com leitores e leitoras. Para fazer essa conexão, sua personagem precisa ser interessante e crível.

Interessante significa que ela deve despertar interesse, intrigar. Mesmo que sua história seja cheia de percursos e aventuras super legais, ninguém quer ler sobre alguém a quem são indiferentes. E crível significa que as ações, emoções e reações são condizentes com os paradigmas que você coloca em seu texto (relações interpessoais, com o mundo e com os próprios sentimentos e história de vida da personagem).

Você consegue alcançar esses dois critérios quando constrói personagens redondas. E, para isso, você precisa descobrir quem é cada personagem que você introduz em sua história. Nesse intuito, você pode se fazer uma série de perguntas sobre o passado e presente de cada uma. Algumas delas são:

Como foi a infância dessa personagem? Foi mais feliz ou triste? Ela era rica ou pobre? Tinha animais de estimação? Por quem foi criada? Seus pais eram jovens ou velhos? Divorciados ou casados? Ela conheceu os dois pais? Tem irmãos e irmãs, e são mais velhos ou mais novos? Na escola ela era calada ou falante? Quem eram seus amigos? Qual era o tipo de escola? Atualmente, a personagem mora onde? Com quem? O que faz? É casada ou solteira? Tem algum hobbie? Qual o seu livro favorito? E sua comida favorita? O que ela não gosta em uma pessoa? O que mais a irrita no mundo?

E assim por diante. Isso vai ajudar a delinear os contornos das personalidades de suas personagens e a prever suas reações.

Outra técnica interessante para desenvolver a personalidade de suas personagens é escrever pequenas cenas aleatórias que contemplem os seguintes elementos (todos ou em parte): diálogo com outra personagem, descrição física da personagem, ação (isto é, uma cena com elementos aos quais a personagem deverá reagir, como uma luta) e pensamentos e emoções.

Enfim, cada autor e autora irá, com a prática, desenvolver seus próprios métodos de construção de personagem.  O importante é lembrar que você tem que dar alguma personalidade às suas personagens, não importa se forem as protagonistas ou secundárias.

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