Criando as personagens

É importante a gente dizer que as narrativas aqui no blog são recortes de nossas reuniões e conversas. A formação de tudo isso não foi tão linear, semanal e bonitinha.  Às vezes, tivemos períodos longos entre as reuniões ou conversas, e outros períodos de intensa produção. Embora cada semana tivéssemos um tema central de pauta, quando nos reuníamos, acabávamos por discutir um pouco de tudo: plot, mitologia, história, geografia e, claro, personagens.

Esse diário é nossa tentativa tanto de colocar uma ordem nas nossas experiências, quanto de organizá-las para contar nossa experiência da melhor forma possível. Isso faz com que se perca algumas partes em razão de escolher  narrar outras com mais ênfase. Por isso, dividimos sempre essa narrativa em temas e tentamos explorá-los o mais completamente possível. Como conversamos muito pela internet e pessoalmente, nem sempre dá para ser 100% fiel a tudo que é dito, embora tentemos fazê-lo. Bem, chamaremos isso de uma pequena licença poética.

Mas algumas coisas, especialmente as reuniões, são mais fáceis de narrar, pois são mais localizadas no tempo e no assunto. Por exemplo, de onde paramos no último post, fizemos nosso planejamento do blog e da página do Facebook, tomamos algumas decisões e fizemos encaminhamentos de tarefas. Ficou dividido assim:

Bruno – Geografia do cenário, fazer o sistema da energia intrínseca que os seres humanos possuem no cenário, fazer o blog em si, criar a página no Facebook.

Luísa – Fazer os personagens, as culturas (incluindo línguas, moda, economia, ambientação), organizar o projeto institucional.

Resumindo, já tínhamos a ideia inicial, a mitologia, história do mundo, o planejamento do blog e da página do Facebook. Mas, para começar a pensar no desenvolvimento da plot, precisávamos de algo muito importante – as personagens.

A discussão sobre as personagens aconteceu, na verdade, durante as semanas anteriores, em nossas conversas diárias. Portanto, quando fomos nos reunir para solidificar o que havíamos conversado, já tínhamos tomado algumas decisões.

Uma delas é que trabalharíamos com quatro personagens centrais na trama, assim como alguns principais antagonistas. Definir o número de personagens ajudou a dar dimensão ao cenário, visualizar o quanto o livro precisará crescer e também refletir sobre o ponto de vista e narrador a ser utilizado. Não que seja o único, ou mesmo o mais importante, dos critérios para essas definições, mas julgamos fator a ser considerado.

Passamos para a construção das personagens centrais, que ocupou a primeira metade da reunião. Afinal, é sobre elas que queremos escrever.

A primeira coisa que criamos foi um arquivo para as personagens (e recomendamos que você crie um arquivo para cada, foi o que fizemos depois). Damos muita importância em  saber quem são e quais os limites que as personagens possuem, e concentrar as informações sobre elas em algum lugar (talvez isso se deva a nossa experiência com rpg). Isso cria material de referência para consultas futuras. Nesse arquivo, as descrevemos em diversos aspectos: aparência física, traços de personalidade, pontos da história pessoal, cultura, inteligência e habilidades.

Discutimos exaustivamente durante a primeira metade da tarde sobre cada uma das personagens centrais. Enquanto conversávamos, saímos, fomos ao shopping próximo para comprar um milk shake de ovomaltine (para mim, a Luísa odeia), depois caminhamos um pouco, voltamos, anotamos mais ideias e descartamos antigas. Alteramos alguns aspectos culturais de algumas regiões das quais as personagens centrais eram provenientes e, no meio, redefinimos também aspectos da própria universidade. O importante aqui é que, como cenário orgânico, tínhamos a consciência de que tudo se interliga e que, ao puxar uma corda, a teia inteira se move. Portanto, alterar algo envolvia repensar as implicações disso para as demais personagens e o cenário que estávamos montando. As ideias encaixadas precisavam ser coerentes com o restante do cenário, para não ferir a suspensão de descrença do leitor ou leitora e para, com isso, construir personagens complexas.

Para dar complexidade às personagens, pensamos que o ideal seria construí-las em camadas. Começamos com os traços da cultura onde nasceram e como isso as influenciou. Quais foram as experiências pessoais ou familiares que as moldaram de uma maneira diversa do que seria habitual ou esperado. O que as torna especiais o bastante para que se queira escrever sobre elas. Quais os traços de personalidade que constituem as principais linhas de ação que tomarão durante o livro. E quais são suas qualidades e defeitos. Além das qualidades óbvias, como ser excelente em combate com machados, por exemplo, também é importante pensar naquelas qualidades inúteis (sabe fazer malabarismo, cozinhar bem, entender de astrologia, entre outras). Também é importante criar personagens que possuam defeitos que  as atrapalhem de alguma forma real (hiperatividade, dificuldade de empatia, personalidade explosiva, depressão). E, por fim, pensamos em como o tipo de habilidade de controle da energia intrínseca influenciou as personalidades de cada personagem.

Um primeiro ponto que destacamos nessa criação foi nossa preocupação que a personagem feminina tivesse identidade e razão próprias, não servindo apenas de muleta para uma personagem masculina principal. Acreditamos ser importante construir esse tipo de personagem para empoderamento feminino dentro da literatura especulativa, um tanto quanto carente nesse ponto. Significa se precaver desde o começo contra os clichês que cercam as personagens femininas e, especialmente, conseguir subvertê-los.

Como um dos nossos critérios básicos foi criar uma obra de literatura especulativa dentro de uma estética tropical, um segundo ponto foi a definição de que as principais etnias do cenário seriam as negras e as indígenas.

Assim, chegamos nas nossas personagens centrais: o perfeito, a mina forte, o miguxo e o tirão sarcástico. Usamos esses codinomes nesse primeiro momento, pois estávamos ainda decidindo os aspectos linguísticos de cada cultura.

Criadas as personagens, passamos para a segunda metade da tarde: a construção das relações existentes entre eles. Esse é um dos aspectos que consideramos importantíssimos em uma boa história. Os relacionamentos constituem os laços que fazem personagens críveis, pois demonstra suas interações sociais. A construção dos laços afetivos – positivos, indiferentes, negativos – é de imensa ajuda na hora de sentar e escrever o livro, pois guia tanto as ações quanto as reações das personagens entre si. Definir os elos de ligação e o mapa de relações é uma das melhores formas de não se perder na plot da história, permitindo tecer as conexões certas.

Decidir as relações implica em saber o que cada um pensa sobre o outro. Tivemos várias ideias dessas relações e já imaginamos, inclusive, como mostrá-las no livro.

E ao trabalhar as relações, decidimos por fim uma coisa muito importante:

(SPOILER ALERT)

(SPOILER ALERT)

(SPOILER ALERT)

(SPOILER ALERT)

(SPOILER ALERT)

(SPOILER ALERT)

Há mais de um relacionamento afetivo nessa história =)

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Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
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