A construção de mitologias na literatura especulativa

O gênero de ficção especulativa, especialmente fantasia, trabalha com a criação de um mundo novo ou ainda com a reinvenção deste em que vivemos, agregando elementos mitológicos na formação histórica, política, social e religiosa.

Toda mitologia é, em última análise, um relato dogmático para explicar fenômenos ainda incompreensíveis ou narrativas de lendas imemoriais, quase sempre envolvendo elementos sobrenaturais.

Em uma história, especialmente na literatura especulativa, o mito é um dos fatores responsáveis pela Suspensão de Descrença de quem lê. Sua construção bem estruturada torna verossímil ou aceitável determinados aspectos, assim como explica o desenvolvimento das sociedades envolvidas no cenário.

A mitologia quase sempre liga-se a elementos religiosos e alegóricos interpretáveis. Estes são atemporais, justamente por terem tido lugar em tempos imemoriáveis. Também não possuem a necessidade de serem explicáveis pela razão ou mesmo possuírem coerência, embora a eles seja imposto um sentido. O Mito explica-se pelo maravilhoso, pelo fascínio e por não haver a possibilidade de ser contraposto ante qualquer comprovação. Ou seja, o mito é tido como fato irrevogável, pois não pode ser desmentido, mas apenas desacreditado.

Nosso mundo possui uma infinidade de mitologias: a judaica (na qual também se encontra a cristã e islâmica), celta, nórdica, hindu, budista, asteca, grega, babilônica, etc. Como podemos verificar, as mitologias possuem forte ligação com a religião e são pedras fundamentais de diversas sociedades.

As mitologias, portanto, possuem uma dupla função para uma determinada comunidade: explicar os fenômenos e legitimar a ordem natural das coisas.

Certo, depois dessa pequena aula chato-teórica sobre mitologia, a pergunta que você deve estar fazendo é: no que isso me ajuda a construir mitos para meu livro de fantasia?

Bem, primeiro isso ajuda a compreender o papel que as mitologias devem representar no seu cenário: Explicar coisas. Explicar a origem do mundo, os ciclos naturais, os poderes superiores, os seres mitológicos, a magia e outras habilidades sobrenaturais. Assim, tanto os elementos naturais quanto os místicos poderão ter (e terão) uma explicação mitológica.

Segundo, elas relacionam as explicações com as estruturas sociais e políticas existentes, atribuindo-lhesnaturalidade e a legitimação advinda do poder do mito, especialmente em cenários de fantasia. As mitologias impõem, portanto, a ordem natural das coisas, ao naturalizar as relações de poder. Isso pode ser muito interessante para introduzir diversas plots de disputas políticas, por exemplo.

Os desdobramentos das mitologias e da sua influência permeiam as instâncias das comunidades que sobre elas se ergueram. Ainda que existam movimentos contrários ou movimentos racionais nessa sociedade, as mitologias definiram os conceitos morais, os ethos aceitáveis e reprováveis daquela comunidade.

Agora que conversamos um pouco sobre o que são as mitologias e qual o alcance que podem possuir dentro do cenário, a próxima pergunta é: como criar uma mitologia?

Criar mitologias para um cenário especulativo é uma tarefa árdua e complexa. Portanto, não temos a pretensão de ser um guia definitivo para a criação de seus mitos. Mas trazemos aqui alguns pontos que consideramos essenciais.

Os mitos tratam dos fundamentos constituintes do pensamento das sociedades, religiões e núcleos comunitários existentes em sua história. E para que possam ser estabelecidos, você que escreve tem que tomar algumas decisões.

É possível estruturar sua mitologia a partir de uma premissa. Escolher o ponto principal dela, para o que ela terá utilidade no cenário e a partir daí criar suas histórias e lendas. Portanto, ter as premissas da sua história é muito relevante para a construção de uma mitologia sólida.

Em cenários de fantasia, as mitologias podem ser verdadeiras. Talvez não completamente (inclusive os poderes superiores ou grupos dominantes podem ter forjados histórias mitológicas), mas os acontecimentos narrados podem ter tido um espaço real em tempos além da memória. Nesse caso, é importante você – essencialmente quem cria o universo do livro – saber o que é verdade, o que aconteceu e o que foi aumentado, esquecido ou forjado. Ou ainda decidir que cada mitologia explica o mundo a sua maneira, de forma que é impossível haver uma explicação real da criação.

Outra decisão importante é se existirá uma única mitologia fundadora ou tantas mitologias quanto existirão povos e matrizes religiosas.

Um exemplo de única mitologia fundadora é a Terra-Média, de Tolkien. A mitologia Tolkiana é idêntica para todos os povos e raças do cenário e se estrutura sobre a formação do mundo pelos Valares, os conflitos com Morgoth e, posteriormente, com Sauron, a ascensão e queda dos Homens de Aman e a eterna busca pelas Silmarillions, para citar alguns pontos. Tolkien, em seu cenário, determinou que a sua mitologia possuiria uma única matriz e todas as estruturas sociais e raças existentes se curvam perante esta.

Uma mitologia única representa a vantagem da unidade. É mais fácil trabalhar dentro do consenso entre quem são os poderes superiores e os inferiores do cenário. Ela também possibilita que o jogo de linguagem entre as culturas existentes seja, em alguns pontos, universal. Isso facilita os intercâmbios sociais, políticos e comerciais. Além disso, basta uma explicação universal para o mundo ser como é.

No entanto, também é possível decidir dar ainda mais nuances ao cenário, optando pela criação de mais de uma mitologia. Essa é uma escolha muito mais trabalhosa, embora não necessariamente mais complexa. Nesse caso, talvez um mito seja verdadeiro e os demais apenas enganos cometidos por crentes ou forjadas por grupos sociais dominantes. Ainda é possível que dois ou mais sejam verdadeiros em seu próprio espaço e tempo, ou mesmo que  nenhum deles seja completamente verdadeiro. Dentro desse contexto, as mitologias muito provavelmente estarão ligadas à origem de povos ou às matrizes religiosas.

Nesse cenário, as mitologias terão eventualmente que se relacionar. Poderão ser pacíficas ou conflituosas uma com as outras, e cabe mais uma vez a você decidir quais as relações que elas possuem. Ademais, também poderão existir distintas interpretações dos fatos mitológicos, que levam a dissidências e conflitos dentro das próprias estruturas sociais baseadas em uma mesma mitologia.

É importante ter consciência que em um universo complexo a história mitológica terá relação direta com os poderes superiores daquele cenário, contando em metáforas e alegorias como eles se tornaram o que são. Ou ao menos justificando suas posições, alianças e conflitos, assim como marcando suas zonas de influência físicas e místicas. Estes são excelentes aspectos a serem explorados.

George Martin faz isso muito bem. Suas diversas mitologias apresentadas demonstram claramente relações de poder e de intriga em todas as esferas – sobrenaturais e políticas – que envolvem deuses e culturas. Os conflitos entre o Deus Vermelho e os demais deuses, a convivência entre os Deuses Antigos e os Sete, as religiões e culturas do oriente, tudo se correlaciona e demarca posições.

As mitologias também possuem enfrentamentos entre os valores morais aceitáveis, representados pelos poderes dominantes  naquela comunidade, e os reprováveis, representados pelos poderes obscuros e derrotados, mas que não foram destruídos. Para toda mitologia, são necessários antagonistas dentro dela  mesma. Na mitologia grega, tivemos o conflito entre os titãs e os deuses, e posteriormente as relações conflituosas dos deuses entre si.

As mitologias, como já dito, justificam relações de poder. Portanto, são alegorias da própria religião ou sociedade que sobre ela se estruturou, ou que foi nela estruturada. A mitologia e a estrutura social na qual se insere são espelhos uma da outra e precisam ter correlações. Isso não quer dizer que as estruturas não possam ser corrompidas ao longo da história, ou que ajam de maneira diferente dos ethos mitológicos sobre os quais foram fundados. Tampouco que absolutamente todos os detalhes das estruturas sociais estejam presentes na mitologia. Mas sendo ela a fonte de legitimidade, o cerne político terá relação com a mitologia.

Por fim, a complexa mitologia que você construir, cheia de nuances e com todos os detalhes possíveis e imagináveis, apenas será parcialmente explorada, de maneira oblíqua e como fundo de explicação do cenário. Aceite isso como algo bom. Talvez seja por isso que muitos escritores não “perdem tempo” construindo uma sólida mitologia. Mas fazê-lo dá segurança ao texto, auxilia na Suspensão de Descrença e dá profundidade ao cenário.

Alguma outra dica para criar uma boa mitologia? Pensou em alguma premissa interessante? Conte para a gente!

Anúncios

Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
Esse post foi publicado em Teoria e Técnica e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para A construção de mitologias na literatura especulativa

  1. Pingback: Sistemas místicos na literatura especulativa | Escrevendo Fantasia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s