E um mundo começa

A partir da última reunião, quando descartamos a ideia inicial e recomeçamos do zero, o projeto do livro conjunto ganhou força. Empolgados, começamos a discutir sobre como organizaríamos nossos trabalhos, pois fazer uma obra conjunta implica em algumas dinâmicas bem diferentes de escrever sozinho.

Quando você escreve só, são apenas suas ideias no papel (ou bits), seus conceitos e sua construção de cenário, personagens, plots. Você não precisa ceder em algum aspecto ou forçar uma discussão para defender outro. É mais simples nesse sentido, mas estamos percebendo que é possível alcançar uma riqueza de detalhes muito interessante em um trabalho conjunto.

Para que possamos desenvolver o projeto, precisamos primeiro estruturar as tarefas e dividi-las, assim como pesquisar ferramentas que facilitem o trabalho. Sem querer fazer propaganda – mesmo porque não estamos recebendo nada para isso, infelizmente – elegemos como editor de texto o Google Drive Docs, que permite a edição simultânea de quem compartilha o arquivo e o acesso remoto a partir de qualquer lugar com internet. Não que essa seja a ferramenta de edição ideal, mas pesando as funcionalidades e o que precisamos, ela ganhou (mantendo, é claro, o backup devido em um disco rígido – somos conservadores nesse ponto). Também decidimos que o ideal seria trabalharmos com a divisão da escrita. Assim, ora um e ora outro ficou responsável por escrever um tópico e, quando começarmos o livro, cada um escreverá um capítulo. O que ficasse responsável pela escrita terminará o trabalho e passará para o outro, que não apenas revisará, mas também reescreverá esse primeiro texto. A ideia com isso é tanto mesclar os estilos como potencializar as descrições, que seriam beneficiadas com o que é importante para cada um.

Isso decidido, fizemos as primeiras divisões dos trabalhos, começando por todo o background que servirá de material de referência para o livro. Nessa primeira divisão, eu – Bruno – fiquei responsável por criar as mitologias do cenário e também o sistema de energia intrínseca, e a Luísa ficou com os personagens e as culturas.

A ficção especulativa, seja de fantasia ou ficção científica, abre um espaço diferenciado dos demais gêneros literários: o de criar uma realidade a partir do nada. São novos parâmetros e elementos que podem – e devem  – ser complexos e estruturados para servirem de base a um cenário geopolítico e social.

Compreendemos que as narrativas mitológicas possuem uma imensa influência no cenário. Afinal, são nas explicações lendárias do início de tudo que se baseiam as crenças e origens místicas. São, portanto, os mitos fundadores que determinam drasticamente diversos critérios históricos evolutivos das culturas do cenário.

Existem diversas perguntas a serem feitas ao se lidar com as mitologias fundadoras, tópico que exploraremos nessa quarta-feira, e não existe uma fórmula pronta para produzi-la. Aqui, o negócio é imaginação e muita problematização dos aspectos sociais e políticos, em suas causas e consequências.

No caso dessa criação, partimos da nossa premissa – energia intrínseca, universidade, civilização antiga, cataclisma -, e acrescentamos alguns conceitos norteadores (evitamos entidades superiores criadoras, por exemplo). Também centralizamos a questão da energia, pois ela será determinante para o cenário.

Escrever uma mitologia (ou várias delas) demanda uma visão geral sobre o mundo, para definir a influência da mitologia no mundo e do mundo na mitologia. Definir se a mitologia é real ou alegórica, se haverá apenas uma mitologia fundadora, duas, cem, milhares.

O primeiro esboço da mitologia fundadora foi razoavelmente fácil de se fazer. Na verdade, bastou uma noite e uma garrafa de vinho para fazê-la e, tenho algum orgulho em dizer que ficou legal. Até mostrar para a Luísa, que encontrou diversos furos e pontos que precisavam ser melhorados, expandidos e explicitados. Ainda assim, foi muito bom ver o mundo e o cenário fazendo sentido, deixando de ser algo mecânico que estávamos forçando à criação e se transformando em algo orgânico, que teria suas próprias implicações sistêmicas.

Esse primeiro momento serviu como base. Nas semanas seguintes, muitas de nossas discussões foram em torno dos mitos, suas representações, suas realidades, sua influência na história. Seja pelo chat do Facebook, seja caminhando quase oito quilomêtros, decidimos como adequar, limar e utilizar a mitologia.

Uma das coisas que podemos dizer é que todos os processos que descrevemos aqui ocorrem concomitantemente. Discutimos os personagens, a geografia, o cenário, a história, as culturas, o clima e revisitamos todos os pontos para fazer com que se adequassem, se permitissem mutuamente.

Com as narrativas mitológicas não foi diferente. Embora o primeiro esboço tenha saído em uma noite, foram mais quatro semanas de discussões e ideias até chegarmos a nossa versão atual, mantendo a noção que ela poderá ser – e muito provavelmente será – modificada.

Não queremos dar spoilers do livro. Mas para despertar um pouco a curiosidade, eis o primeiro parágrafo do nosso material de referência:

“Dizem que no início vivia-se escondido na escuridão, sob o domínio do medo. O mundo era hostil e terrível. Magma escorria em rios permanentes, tempestades duravam eternidades e na terra se abriam imensas crateras sem qualquer aviso. A luz cegava e, mais que isso, expunha as pessoas às monstruosidades mitológicas e lendárias, filhos do Sol e das Luas. O Sol e as Luas – que ainda viviam na terra – eram cúmplices e perversos, espreitando as pessoas como se estas fossem brinquedos para seus filhos monstruosos, usando-as em seus divertimentos nefastos. Não havia onde se esconder senão onde não houvesse luz, e por isso as pessoas moravam em cavernas e saiam da escuridão, temerosas, apenas para buscar grãos e caça. As luzes nunca brilhavam no fundo das cavernas, pois o fogo era o Primeiro filho do Sol. A água não corria, pois ela era a Primeira filha das Luas. E por isso todos se escondiam, cada vez mais fundo. Escondendo-se e fugindo dos monstros que os caçavam.”

Não queremos ser clichês finalizando uma postagem com um: “e aí, o que acharam?”, mas nesse caso, é realmente importante sabermos. Então, aí vai: o que acharam?

Anúncios

Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
Esse post foi publicado em Diário de Bordo e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s