Elementos e estrutura narrativa na literatura especulativa

Então aí está você, com uma ideia genial na cabeça, pronta para virar o novo best seller da lista do NY Times. Porém, não é só de bons argumentos que se escrevem histórias de fantasia, ficção científica, ou mesmo horror. Neste tópico falaremos um pouco sobre estrutura narrativa e sua aplicação na literatura especulativa.

Quando se fala na estrutura de um texto, a maioria das pessoas pensa na estrutura narrativa e nos elementos da narração. Para quem não lembra muito bem, os elementos básicos da estrutura narrativa são:

  • Narrador
  • Enredo (introdução, complicação, clímax, desfecho)
  • Personagens (protagonistas, antagonistas e deuteragonistas)
  • Ambiente
  • Tempo

Em narrativas “realistas” alguns desses elementos, como ambiente, podem ser delimitados de maneira rápida, até automática. Às vezes, a resposta já vem mesmo no argumento inicial da história. Se eu quero escrever um conto sobre uma moça procurando emprego em Brasília, por exemplo, já decidi o ambiente físico – a capital do Brasil. Isso não significa, claro, que irei me aprofundar menos nas peculiaridades do ambiente. Mas significa, no mínimo, que não terei que criar um cenário totalmente do zero.

Na literatura especulativa, muitas vezes é isso o que acontece: temos que imaginar mundos novos, adaptar a realidade às nossas premissas, criar personagens que não são humanos, narrar histórias do ponto de vista de objetos inanimados. Neste sentido, a estrutura narrativa pode ser uma ferramenta interessante para pensar o alicerce de nossas histórias.

Por isso, preparamos uma breve explanação sobre cada elemento da estrutura narrativa e sua aplicação na literatura especulativa. Em breve, aprofundaremos cada tópico em postagens próprias.

Narrador:

É quem conta a história, a voz. Sua posição com relação ao fato narrado dita o foco narrativo – que geralmente é em primeira pessoa do singular (eu conto a história), ou terceira do singular (alguém conta).

Essas duas opções, entretanto, estão longe de serem as únicas, e isto pode ser especialmente aproveitado na literatura especulativa. Quem narra a sua história? Um conto de fantasia que se passa em uma comunidade onde não existe a noção de individualidade, por exemplo, pode ser narrado em primeira pessoa do plural. Uma história de horror pode usar o “você” para fazer com que a leitora ou leitor experiencie paranóia e claustrofobia.  Se você aliar estas opções ao nível de consciência do narrador, as possibilidades são inúmeras.

No entanto, tome cuidado com narradores não-usuais. Experimente narradores para contar da melhor maneira sua narrativa, mas lembre-se que o narrador é um elemento que vai compor a sua história, e não o contrário.

Enredo:

O enredo é o que chamamos aqui no Escrevendo Fantasia de plot. Envolve os eventos que irão acontecer e o fato sobre o qual se conta. Mais do que apenas um argumento (“alienígenas irão invadir a Terra”), é o esqueleto da história, o desenrolar deste argumento em uma introdução, complicação, clímax e desfecho. Na literatura especulativa, onde as histórias tendem a se basear em conflitos, é um elemento essencial à narrativa.

George R.R. Martin, autor da série de livros “As Crônicas de Gelo e Fogo” (que basearam a série Game of Thrones, da HBO), é um especialista em enredos. Em sua série de livros  (embora a trama principal não tenha chegado ainda ao desfecho), o escritor criou dezenas de subplots que se entremeiam, prendendo o leitor. Em várias entrevistas, Martin afirmou que, embora deixe que a história o surpreenda no meio do caminho, tem desde o começo um esqueleto de onde ela começa e onde irá chegar.

Muitas pessoas não gostam de se programar, preferindo permitir que a história conduza as personagens e acontecimentos. Porém, é importante definir, desde o começo, o início e o final de sua jornada – mesmo que estes mudem durante o percurso.

Personagens:

As personagens são os seres sobre quem as histórias são contadas, que participam do desenrolar dos acontecimentos. Podem ser protagonistas (as principais), antagonistas (as que irão opor as protagonistas), ou deuteragonistas (personagens secundárias, como fieis escudeiros, assistentes, amigos, etc. Um bom exemplo é o Dr. Watson na série de livros sobre Sherlock Holmes). Existem, ainda, as chamadas “personagens de cenário”, ou figurantes.

Independente da importância da personagem na narrativa, é importante que estas sejam bem construídas, isto é, tenham características físicas e psicológicas próprias, motivações, medos, histórias de vida, etc. Na literatura especulativa, onde, muitas vezes, as personagens podem sequer ser humanas, a etapa de definir personalidades e peculiaridades é essencial à qualidade da história. Dessa forma, quando você for escrever, estará muito mais à vontade com os seres que irão compôr a trama – suas ações, reações e sentimentos.

 

Ambiente:

O ambiente não é apenas onde se desenrola o enredo e circulam as personagens, mas toda a realidade de nossas histórias. Como citado no início do texto, na literatura especulativa o ambiente merece especial atenção, já que, muitas vezes, as características dos mundos onde se passam nossas narrativas não são iguais às da Terra. Para um livro de fantasia pode-se criar um mundo completamente novo, como fez Tolkien na série “Senhor dos Anéis”, ou mesmo realidades paralelas à nossa, como a Hogwarts de J.K. Rowling, ou os universos de Phillip Pullman na série “Fronteiras do Universo”. Seu conto de ficção científica pode se passar na Terra do futuro, mas você terá que pensar em um rumo para a História mundial e suas implicações. Mesmo alterações pontuais e, aparentemente, pequenas da realidade (“meu conto se passa na Terra, mas a pílula anticoncepcional nunca foi inventada”), podem trazer mudanças drásticas ao ambiente, dos costumes sociais à tecnologia.

Como o foco de nosso blog é escrever fantasia, entretanto, apresentamos um passo a passo (mais ou menos) simplificado para criar um mundo do zero – que também pode ser usado para criar planetas na ficção científica. Em um momento futuro, escreveremos uma postagem aprofundando o tópico.

Ambiente físico – Quais as características físicas do universo? E do mundo em questão? Quantos anos tem o mundo? Já passou por muitos cataclismas, desastres naturais, e como estes o afetaram? Qual a distância entre ele e a estrela mais próxima? Qual a percentagem de água e terra habitável? Quantas luas esse mundo tem, e como isso afeta o ambiente físico?

Cultura – Quais os povos presentes nesse mundo?

Para cada um, prepare: características físicas; história; religião; costumes; economia; educação; linguagem (você não precisa inventar um idioma, como Tolkien, mas defina pelo menos a base da língua para que os nomes tenham um senso de unidade – por exemplo, a língua usa todas as consoantes, mas apenas a letra “a”); moda; culinária; arquitetura e infraestrutura; nível tecnológico; política e governo; e assim por diante.

Tempo

O tempo é a maneira como o narrador se relaciona com o desenrolar dos acontecimentos. A história pode ser narrada à medida que vai acontecendo, muito tempo após sua conclusão, ou ainda alternar entre presente e passado.

Na literatura especulativa, a escolha do tempo ideal para sua narração pode ajudar na suspensão da descrença de leitoras e leitores, isto é, na imersão das pessoas no universo e criação de uma história crível. Na série “Jogos Vorazes”, por exemplo, Suzanne Collins usa o presente para criar uma narrativa mais dinâmica, claustrofóbica, com ritmo rápido e urgente, que já lança desde a primeira frase a leitora ou leitor na atmosfera da história.

Essas são algumas aplicações dos elementos narrativos na literatura especulativa, mas existem muitas outras. Fica aqui a dica para que você pense bem cada um dos elementos e a estrutura de sua narrativa. Além de desempenhar um papel fundamental, podem trazer mais profundidade e qualidade ao seu trabalho.

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