Escrevendo sem inspiração

Há quem defenda que a inspiração é essencial para o ato de escrever. A inspiração, a musa, o raio, aquilo que separa artista e mortal. Para quem escreve, é aquela sensação quando uma ideia genial brota em sua mente e você se entrega à onda, as palavras fluindo de sua alma diretamente para o papel, a sublimação, o je ne sais quoi. Certo? Certo?!

Depende. É preciso desmistificar essa ideia. Enxergar a inspiração menos como algo divino e mais como um estado alcançável – mesmo que ela possa, também, ser o arroubo.

Não que tenhamos algo contra inspiração. Ninguém dirá neste blog que a inspiração é superestimada, ou que trabalhos “menos” inspirados são melhores que trabalhos verdadeiramente “tocados” – até porque falar sobre maior, menor ou até verdadeira  inspiração é uma discussão longa, filosófica, que não entra no escopo desta postagem. Tudo o que estamos dizendo é: se você decidir escrever apenas quando a inspiração for a seu encontro, você não vai escrever.

Quantas pessoas você conhece que se dizem escritoras, mas que não escreveram sequer uma linha nos últimos meses? Claro que não existe um “carimbo” que separa escritoras e escritores de “pessoas normais”, mas o básico é: escritoras e escritores são pessoas que escrevem. Com inspiração nos dias de glória, mas sem inspiração nos dias de preguiça, falta de saco, desânimo, porque esse é o seu trabalho. Afinal, se um contador chegar no escritório e disser que não está inspirado para calcular naquele dia, muito provavelmente será demitido.

“Isso quer dizer que tenho que escrever quando não estiver inspirado?” Sim. Mas isso quer dizer, principalmente, que se deve buscar a inspiração, ao invés de esperá-la vir com um raio de genialidade sobre você.

Em uma entrevista para um  podcast, Neil Gaiman disse:

“Se você vai escrever apenas quando estiver inspirado, você poderá ser um poeta razoavelmente decente, mas você nunca vai ser um novelista – porque você terá que atingir o seu número de palavras hoje, e essas palavras não vão o esperar, esteja você inspirado ou não. Então você tem que escrever quando não estiver ‘inspirado’… E o esquisito é que seis meses depois, ou um ano depois, você vai olhar e não vai lembrar quais cenas você escreveu inspirado e quais escreveu porque precisavam ser escritas”.

Além dele, outros artistas falaram sobre a importância de desenvolver um fluxo de trabalho contínuo. Uma das citações mais famosa, comumente atribuída a Stephen King, é na verdade do artista plástico Chuck Closes. Ele disse, “inspiração é para amadores – o restante de nós apenas aparece e põe a mão na massa. Toda boa ideia que já tive nasceu do próprio trabalho”.

Rachel de Queiroz, que foi a primeira mulher a entrar na ABL e publicou o aclamado “O Quinze” aos vinte anos, afirmou em entrevista ao Jornal Estado de São Paulo, em 22/03/2003:

“A noção comum que se tem a respeito do escritor é que pessoas excepcionais, nascidas com o dom de escrever bem o belo, são periodicamente visitadas por uma espécie de iluminação das musas, ou do Espírito Santo, ou de um outro espírito propriamente dito – fenômeno a que se dá o nome de ‘Inspiração’. O escritor fica sendo assim uma espécie de agente ou médium, que apenas capta as inspirações sobre ele descidas, manipulando-as no papel graças ‘àquele’ dom de nascimento que é a sua marca. Pode ser que existam esses privilegiados – mas os que conheço são diferentes. Não há nada de súbito, nem de claro, nem de fácil.”

Esses artistas não estão defendendo que a inspiração é uma parte dispensável do processo artístico, apenas que o exercício da arte traz a inspiração. Quando você coloca sua mente para funcionar de forma criativa, mesmo sem nenhuma ideia ou inspiração, você exercita sua capacidade imaginativa. Mais: fazendo da escrita uma parte integrante do seu dia a dia, você se coloca no estado de espírito em que filmes, situações, sentimentos, frases, e todas essas outras fontes nas quais nós, escritoras e escritores – esse tipo esquisito -, bebemos, sejam transformadas em boas ideias literárias.

Então, a melhor forma para conseguir inspiração para escrever é (ironia!) escrevendo – constantemente, habitualmente. Clarice Lispector, em sua famosa última entrevista, falou um pouco sobre seu método:

“[Acordo] quatro e meia, cinco horas. Fico fumando, tomando café, sozinha sem nenhuma interferência. Quando estou escrevendo alguma coisa eu anoto a qualquer hora do dia ou da noite, coisas que me vêm. O que se chama inspiração, não é? Agora quando estou no ato de concatenar as inspirações, aí sou obrigada a trabalhar diariamente.”

A maioria dos grandes nomes da literatura têm seu próprio método de trabalho, mas como o que funciona para alguém não funciona necessariamente para outra pessoa, o ideal é criar seus próprios rituais de escrita. Tente escrever de manhã, de tarde, de noite, e veja qual o seu horário mais prolífico. Escreva em casa, em um café, no parque, e veja onde você se sente mais confortável. Use um computador ou um caderno. Encontre sua posição favorita – Proust escrevia deitado; Hemingway, em pé. Crie seus métodos, manias, hábitos.

E, principalmente, pare de ler textos motivacionais na internet e vá escrever!

P.S.: Mas quando acabar de escrever, não esqueça de voltar aqui no “Escrevendo Fantasia” para checar as novidades, dicas e relatos de experiências =)

P.S. 2: Esta postagem foi escrita num arroubo cósmico de inspiração. HAHAHA, só que não.

Anúncios
Esse post foi publicado em Teoria e Técnica e marcado , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s