Escrevendo Fantasia

O Escrevendo Fantasia é um experimento nascido de uma de nossas inúmeras conversas. A ideia é relatar o processo criativo (e não-criativo) da produção de um livro, contando nossas experiências ao desenvolvê-lo, e, a partir delas, dar dicas e sugestões sobre escrita e estrutura literária.

Se vocês lerem o tópico “quem somos” saberão que nós – o autor e a autora, claro – nos conhecemos há algum tempo e chegamos a dividir um apartamento por pouco mais de três anos. Temos muitas afinidades em termos de literatura, seja quanto ao que ler ou escrever, ou às críticas pessoais à ficção especulativa feita no Brasil. Por isso, há alguns meses, mais precisamente no dia 12 de maio de 2014, em uma conversa pelo Facebook sobre escrever um livro de universidade e medieval mágico, surgiu a pergunta (nessas exatas palavras): “vc pilha de escrever um livro YA disso? acho q daria certo”.

A ideia ou a proposta, na verdade, não eram novas. Já havíamos tido essa discussão algumas vezes ao longo desses anos de convivência. No entanto, dessa vez combinamos seriamente de nos encontrarmos para debater e pensar como seria esse projeto.

A nossa primeira reunião foi no parque Olhos D’água, em Brasília (uma foto de lá, apenas para visualizarem o cenário: https://brunoamvial1000palavras.wordpress.com/2014/09/04/olhos-dagua/), e nossa primeira discussão foi: o que queremos com este livro?

A maioria das escritoras e dos escritores, especialmente iniciantes e inexperientes – não que sejamos experts e experientes, mas temos pesquisado bastante sobre o assunto –, acredita que escrever é ter uma grande inspiração, sentar em frente ao computador, máquina de escrever ou pegar papel e começar a trabalhar freneticamente. De fato, é assim que começam quase todas as obras. Mas não é só de inspiração que se faz um livro e, no caso, não havia muita inspiração para a história. Sabíamos apenas que queríamos escrever sobre um cenário universitário em um mundo de fantasia.

A inspiração não é tudo para quem escreve. Pelo menos acreditamos nisso. Ela é muito importante pelo seu usual toque de genialidade, mas muitas vezes – e na grande maioria das vezes – escrever um livro é muito trabalho duro, que exige dedicação e técnica. As mais longas passagens do livro não serão fruto da genialidade e da inspiração, mas de saber manter o ritmo e contar uma história de um ponto até o próximo.

Não tínhamos absolutamente nada sobre cenário, personagens, ou mesmo sobre a história que desejaríamos contar. E a epifânia não veio nesse primeiro momento. Restava-nos desistir do projeto e esperar até surgir uma boa ideia ou decidir que poderíamos fazer algo de qualidade a partir do quase nada. Nossa escolha, como sabem por estarem aqui lendo isso, foi a segunda opção. Afinal, inspiração não é tudo, e às vezes precisamos escrever sem ela.

E por isso voltamos à pergunta: o que queríamos com este livro?

Primeiro, sabíamos que seria um livro sobre uma universidade em um cenário de fantasia. Foram os pontos fundamentais pelos quais começamos. Buscamos os demais pontos da resposta nos nossos incômodos particulares com a ficção especulativa como um todo, mas especialmente quanto a boa parte da produção brasileira.

Queríamos fugir do padrão medieval eurocêntrico, de reinos com castelos,  de duques e cavaleiros em armaduras, de florestas élficas de pinheiros, altas montanhas e campinas verdejantes a se perder de vista. Queríamos fazer literatura de ficção especulativa com inspiração nacional, em um ambiente tropical ou sertanista. Trazer a fantasia para esta realidade e contextualizar esse cenário com o desenvolvimento de uma cultura ficcional envolvendo um universo mágico.

O primeiro brainstorm nos rendeu algumas fontes de inspiração. A Estética Armorial de Suassuna, por exemplo, foi um tópico de discussão. Pensamos também em adaptações de lendas do Eldorado e em um desenvolvimento das culturas indígenas.

Ao final, rejeitamos todas essas bases. Todas eram carregadas, também, da influência das sagas e fantasia da literatura medieval europeia, com conceitos e visões que transmitiam signos europeus. Decidimos, então, que seria necessário criar algo novo.

Começamos a esboçar um cenário imerso em uma floresta tropical, cheio de rios e sem cavalos, o que forçava o transporte a ser fluvial e o tornava muito mais lento e com rotas bem determinadas. As cidades não poderiam ser grandes, pois a floresta seria um ente, algo quase vivo que abrigava toda sorte de criaturas sobrenaturais. As pessoas viviam em cidades à beira dos rios ou do mar, em espaços amplos, e utilizavam roupas leves, pelo calor. O mesmo calor as obrigava a lavarem-se regularmente e transformava o lixo em um estorvo grande demais para ser suportado. Assim, a grande fonte de doenças, como ocorre nos países tropicais, viria de mosquitos e outros insetos que rondavam as pessoas em números incalculáveis. A moda pedia roupas leves pelo calor, mas que afastassem insetos, ao mesmo tempo. Por isso, as pessoas usualmente se besuntavam em óleos e usavam ervas queimadas para afastá-los, além de mosquiteiros e abanadores. Seria, assim, uma cultura muito aromatizada, cheia de cheiros e sabores. Sendo um cenário de fantasia com misticismo, criamos a hipótese de algumas pessoas possuírem uma forma de energia mágica natural, a qual batizamos provisoriamente de Anima. O Anima era uma energia poderosa de diversas manifestações, mas temida, pois quem a possuía não conseguia controlá-la, fazendo com que a pessoa fosse expulsa para as florestas. Isso mudara há cerca de 200 anos, quando surgiu a Universidade, um local de ensino em que as pessoas com Anima poderiam aprender a controlá-lo.

Essas e algumas outras ideias surgiram de uma longa discussão sobre as implicações do cenário no desenvolvimento cultural do mundo. Anotamos tudo em um caderno, inclusive alguns desenhos sobre como seria a principal cidade, para não perdermos as ideias.

Combinamos de continuar na semana seguinte, também em uma sexta-feira. Definimos tarefas de pesquisa para cada um e tivemos, claro, algumas conversas sobre o projeto nesse meio tempo, experiências que relataremos na próxima postagem de segunda-feira.

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Sobre Bruno Vial

Geek, fotografo, escritor, mestrando, besta e mentiroso. Tentando por mil caminhos.
Esse post foi publicado em Diário de Bordo e marcado , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

2 respostas para Escrevendo Fantasia

  1. eu também sou fotógrafa, mas ainda não tenho máquina………,te amo………….que to de seguindo

  2. vai me ensinando pois não endendo quase nada de computador

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